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Gaudete in Domino

A alegria cristã segundo São Tomás de Aquino

Astérix et Obélix par Marcel Uderzo

É difícil definir o que é a alegria: por que razão estamos alegres em certos dias e tristes noutros? A «alegria» dos dias em que acordamos de bom humor é a verdadeira alegria? A alegria espiritual é compatível com a tristeza? Tentemos, com São Tomás de Aquino, responder a todas estas questões, para descobrir e viver a verdadeira alegria cristã, enquanto esperamos pelo tempo da alegria por excelência, que é o Natal.


1. A alegria é um efeito da caridade em nós


São Tomás começa por se questionar sobre a origem da alegria [1]: ele afirma que, enquanto paixões, tanto a alegria como a tristeza provêm do amor. De facto, a alegria é o resultado da presença do bem que amamos, enquanto a tristeza é a consequência da ausência desse bem. Obélix alegra-se quando está na presença de um grande javali bem assado, mas fica profundamente infeliz quando, na Lusitânia, lhe oferecem bacalhau em vez de javali. A ausência do javali que ele ama causa-lhe tristeza, assim como a presença do javali é fonte de alegria. O amor exige, portanto, uma certa presença do amado no amante, que gera a alegria. A presença do javali na boca de Obélix provoca-lhe grande alegria.


Este fenómeno pode ser igualmente aplicado ao amor espiritual, que é a caridade. A caridade é o amor a Deus, e esse amor existe na medida em que o bem amado, neste caso o próprio Deus, está presente nas nossas almas. Desta feita, a caridade é um amor dado por Deus, consequência da Sua presença na alma em estado de graça: «Quem permanece na caridade permanece em Deus e Deus nele» [2]. Esta presença do Bem imutável na alma é a causa de uma grande alegria, infinitamente mais profunda do que aquela provocada pela presença do javali na boca de Obélix. Assim, a alegria espiritual, que é a mais profunda de todas, é causada pela caridade, ou seja, pelo amor a Deus.


Esta primeira conclusão leva São Tomás a formular uma segunda questão: será a alegria espiritual compatível com uma certa tristeza?


E se seguiram com atenção até aqui, talvez já saibam a resposta…


2. Pode a alegria ser misturada com alguma tristeza?


A alegria e a tristeza parecem ser contrárias e, portanto, incompatíveis. Mas tudo depende da perspectiva. É impossível, de facto, para Obélix estar simultaneamente alegre pela presença do javali e infeliz pela sua ausência. Isso implicaria uma contradição: que o javali assado estivesse ao mesmo tempo presente e ausente. Ou ele está lá e Obélix está contente, ou ele não está e Obélix fica triste… Mas pode ocorrer que a infelicidade provocada pela ausência do javali coexista com a felicidade de ter a bela Falbala ao seu lado. Logo, Obélix pode estar ao mesmo tempo triste pela ausência do javali e profundamente feliz pela presença de Falbala.


A alegria espiritual baseada no amor a Deus é, de facto, incompatível com a tristeza espiritual [3]. No entanto, como Obélix nos mostrou, a alegria causada pela presença de um bem pode coexistir com a tristeza causada pela ausência de outro bem. É por esta razão que a alegria espiritual é compatível com todos os tipos de males, desde que esses males não façam desaparecer em nós a fonte dessa alegria espiritual, que é o amor a Deus nas nossas almas. Eu posso ser espiritualmente feliz porque amo a Deus e, ao mesmo tempo, estar profundamente triste porque perdi um amigo, ou porque o meu pai morreu, ou porque estou a enfrentar uma grave doença. A ausência de um amigo ou a presença de um mal (doença, dificuldades financeiras…) não anulam a minha alegria espiritual, pois tudo isso não apaga em mim a presença de Deus, o bem supremo que amo mais do que tudo.


3. Podemos crescer na alegria?


Esta concepção da alegria espiritual que resulta da presença de Deus na alma tem consequências notáveis para a nossa vida espiritual:


"De facto, é conveniente (…) que a presença do bem amado no amante produza a alegria. E quanto mais alguém ama, mais se rejubila com a presença do ser amado". [4]


Aprendemos com isto que é impossível aumentar a nossa alegria…. Confuso? De forma alguma! Não podemos aumentar a nossa alegria directamente, pois ela não é uma virtude, mas antes o efeito de uma virtude [5]: a caridade. É o grau de caridade que determina o grau de alegria espiritual: quanto mais amo, mais sou alegre. Portanto, é inútil tentar forçar o crescimento da nossa alegria; isso seria falso e hipócrita ou, na melhor das hipóteses, artificial. Uma alegria fabricada e forçada é facilmente identificável e muitas vezes interpretada como uma falta de simplicidade. Sim, é possível aumentar a nossa alegria, mas não de forma directa ou com a nossa força de vontade, pois seria falso e enganador! Para ser mais alegre, é preciso que a caridade cresça.


No entanto, sendo a caridade uma virtude infusa, ou seja, uma virtude que não se pode adquirir pela repetição de actos, ela é dada directamente por Deus à alma. O meio mais eficaz para crescer na caridade é, portanto, pedi-la frequentemente na oração ao Espírito Santo. Peçamos-Lhe, na oração, que a presença de Deus nas nossas almas gere em nós um amor maior por Ele, e que esse amor seja acompanhado de uma alegria radiante e imperturbável.


4. A alegria de Maria e a alegria do Natal


Se a alegria é tanto maior quanto mais perfeito é o amor, quão grande terá sido a alegria de Maria na Terra! Ela que é «cheia de graça» é também, portanto, plena de amor. E porque Nossa Senhora é plena de amor é também por isso plena de alegria. O seu amor por Deus é maior do que o de todos os santos, em virtude da missão muito especial para a qual Deus a preparou.


Mas a alegria de Maria no Natal é particularmente impressionante. Enquanto estava ainda à espera de Jesus, a sua alegria em ser Mãe do Salvador já se expressa no grito de amor do Magnificat: «A minha alma glorifica o Senhor, e o meu espírito exulta em Deus, meu Salvador!» Não só Nossa Senhora tem Deus na sua alma desde a sua Conceição Imaculada, como também O tem no seu seio. Esta presença do amado na sua alma e no seu seio, a presença física do Seu Filho, que é Deus, faz brotar nela a maior alegria que a humanidade já conheceu.


Além disso, esta alegria espiritual aumentou em Nossa Senhora dia após dia, acção após acção. Como o seu amor a Deus não cessou de crescer durante a sua vida na Terra, também o crescimento da sua alegria pode ser traduzido por uma curva exponencial. A Virgem Maria, porque é «plena de graça», é também plena de alegria. Nem mesmo durante a terrível Paixão do seu Filho Jesus, à qual se uniu de forma tão íntima, Maria foi menos alegre espiritualmente (apesar da grande tristeza humana de ver um Filho inocente, que é Deus, morrer daquela maneira atroce).


5. A alegria do Natal para nós


O Natal não é para os cristãos um simples memorial ou aniversário do nascimento de Jesus. Na liturgia, de facto, obtemos realmente o que pedimos: o passado torna-se presente, de certa forma, nas nossas almas. Assim, durante os diferentes tempos litúrgicos, obtemos as graças próprias dos mistérios que aí são celebrados.


Uma das graças próprias do Natal é a alegria espiritual que provém deste novo nascimento do Menino Jesus, um novo Advento do Salvador, através de um novo influxo de graça nas nossas almas. O Natal é uma excelente ocasião para crescer no amor ao Menino-Deus e, assim, crescer numa alegria da infância espiritual. Não é por acaso que a santa carmelita de Lisieux quis chamar-se «Teresa do Menino Jesus».


Eis o que a Igreja pede a Deus na oração da Missa do Galo: «Ó Deus, que iluminastes esta noite santíssima com os esplendores da verdadeira luz: dignai-Vos conceder-nos, a nós que conhecemos estes mistérios de luz na Terra, saborear também as suas alegrias no Céu.» O Domingo de Gaudete antecipa esta alegria do Natal com a exortação de São Paulo: «Alegrai-vos sempre no Senhor».


«Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (Jo 16, 22): nem a doença, nem as perseguições, nem a morte dos nossos entes queridos, nem qualquer tristeza legítima pode tirar-nos essa alegria espiritual fundamentada na presença de Deus na alma amada e amante. Podemos então cantar em verdade: «Gaudete in Domino semper


Padre Manuel Vaz Guedes, FSSP


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Referências
[1] Suma Teológica, IIa IIae, q. 28, a. 1.
[2] 1 Jo 4, 16.
[3] No entanto, a alegria fundamentada na nossa participação na bondade divina, ou seja, a bondade divina em nós, é compatível com uma certa tristeza, por exemplo, a tristeza que deriva do medo de perder, por nossa culpa, o amor de Deus nas nossas almas. Cf. Suma Teológica, IIa IIae, q. 28, a. 2.
[4] Suma contra os Gentios, III, c. 112.
[5] Suma Teológica, IIa IIae Pars, q. 28, a. 4.

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