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Porquê oferecer os nossos sofrimentos a Deus? (I/III)

Parte I - Introducção a uma reflexão-meditação sobre o sofrimento

Sofrimento humano

INTRODUCÇÃO


Ao entrarmos na Quaresma, a Igreja convida-nos a recolher o espírito, a disciplinar os sentidos e a elevar o olhar para o mistério da Cruz. Estes quarenta dias de penitência são uma excelente ocasião para meditar no sentido do sofrimento na vida cristã. Num mundo que foge à dor e procura anestesiar qualquer forma de sacrifício, a Igreja, Mater et Magistra, recorda-nos que é precisamente pela Cruz que se chega à salvação: Per Crucem Ad Lucem. Contemplar o sofrimento à luz de Cristo crucificado é aprender que ele não é absurdo nem estéril, mas instrumento de purificação, de reparação e de união íntima com Deus. Este é o tempo oportuno para redescobrir o valor sobrenatural da Cruz nas nossas próprias vidas.


O tema que nos ocupa nesta reflexão-meditação é especialmente difícil, é o tema do sofrimento. Nos últimos anos, tenho ouvido repetidamente: “Quem nunca sofreu a sério, não fale do sofrimento, porque o seu discurso será ridículo”. Com prudência vou ousar falar no tema, não porque tenha sofrido especialmente, mas porque Cristo nos veio esclarecer sobre este assunto. Assim, estas linhas pretendem transmitir os ensinamentos objectivos de Cristo sobre o sofrimento e não um testemunho pessoal subjectivo. Mas, desde logo, deparamo-nos com uma dificuldade: Jesus não fez um discurso teórico sobre o sofrimento. O sofrimento humano é um escândalo para a razão humana. Mas Jesus é o Verbo de Deus e se não ensinou com as suas palavras ensinou com a sua Vida. Na verdade, foi no silêncio da Cruz que Jesus nos ensinou sobre o sofrimento. Foi no silêncio da dor que o Verbo de Deus nos falou. Jesus assumiu o sofrimento humano dando-lhe um novo valor. Podemos dizer que Jesus “santificou” o sofrimento. O sofrimento (sobretudo dos inocentes) parece absurdo e injustificável, no entanto ele tem um sentido e um grande valor. Devemos cuidar dos outros e lutar contra as nossas próprias dores tanto quanto possível, mas é preciso, além dessa reacção natural e boa, ter uma perspectiva mais sobrenatural.



A CONDIÇÃO HUMANA


Numa sociedade cada vez mais secularizada, mais longe de Deus, o sofrimento parece ter-se tornado um tema tabu (do qual não se pode falar abertamente). No entanto, o sofrimento faz parte da nossa condição humana, ninguém lhe escapa. É um tema essencial porque inevitável. Mais cedo ou mais tarde todos sofremos. Um mundo sem sofrimento é uma utopia (um ideal impossível). Claro, o homem pode e deve, na medida do possível, evitar o sofrimento que é um mal em si mesmo. Nesse sentido os cuidados médicos e a companhia aos doentes e às pessoas que sofrem são as respostas mais humanas que podemos dar nessas situações dramáticas.


O tema do sofrimento é um tema muito actual, basta ver os debates em torno da eutanásia. A eutanásia é a consequência de uma sociedade que perdeu a visão sobrenatural do sofrimento. É uma consequência previsível, mas não é uma consequência lógica, porque mesmo numa perspectiva puramente racional como é que a afirmação livre do “Eu” pode coincidir com a supressão do “Eu”? Ninguém escolheu viver e também ninguém escolhe morrer, a morte virá, quer queiramos quer não, a vida e a morte estão fora do alcance da liberdade humana. Podemos escolher conservar a vida, defender a vida, levá-la até ao fim dignamente, mas a vida é um dom gratuito que nos ultrapassa e que nós acolhemos sem o ter escolhido. E quando alguém escolhe o suicídio em nome da liberdade e da dignidade do “Eu” suprimindo esse mesmo “Eu” cai numa contradição enorme. A liberdade é uma característica da vontade humana que permite ao homem desenvolver e aperfeiçoar a sua vida e não destruí- la. Só uma ideologia extremamente perversa é que é capaz de subverter as mentalidades ao ponto de propor o suicídio como um acto livre bom. A sociedade que propõe como resposta ao sofrimento a morte é uma sociedade do desespero. Os cristãos têm na sociedade actual um papel fundamental: pregar a Esperança diante do drama da morte e da dor. A esperança do Céu e da ressurreição final muda completamente a maneira como vivemos o sofrimento.


Quando somos confrontados com os sofrimentos dos outros, a primeira coisa a fazer é ter compaixão e cuidar, tanto quanto possível, nem que seja através de uma presença discreta e caridosa. A oração e essa presença atenta são o nosso primeiro dever, mais do que pronunciar grandes discursos que tentem encontrar um sentido e desculpar Deus que é infinitamente Bom e Todo-Poderoso. Além dos discursos ridículos e insuficientes, também é arriscado falar sobre o sofrimento porque o sofrimento é sempre pessoal e incomparável. 


O grau de sofrimento que pode afectar uma pessoa não se mede unicamente em função do mal objectivo que ela sofre, mas também segundo as suas disposições pessoais. É por isso que o mesmo mal pode ser sentido e suportado de maneira muito diferente segundo a condição da vítima, do seu estado mental e físico, das suas experiências passadas, do seu meio, das suas amizades e da sua família.


Ainda que cada sofrimento seja único e variado segundo os tipos de males que nos possam afectar, a dor pode ter para cada um de nós um sentido comum. De facto, quando aceitamos a dor, ela torna-nos humildes e desapegados das vaidades deste mundo. A dor mostra-nos a nossa condição frágil de criaturas dependentes e centra-nos no essencial. Também nos revela, a nós pecadores, as consequências do pecado dos nossos primeiros pais que recusaram admitir essa mesma dependência em relação a Deus e que por isso, cortando a amizade com Deus, feriram a sua natureza - e a nossa - que só está em ordem quando está com Deus. Mas para os cristãos aquilo que dá sentido e valor à dor e à morte é Cristo. Na liturgia da Vigília Pascal os católicos ousam cantar acerca do pecado original: “Ó feliz culpa que nos mereceu tão grande Redentor!” Porque com Cristo a dor e a morte, consequências do pecado, foram transformadas em ocasião de salvação e alegria sobrenatural.


Deus é Omnipotente e pode suprimir miraculosamente certos males, mas, normalmente - os milagres são por definição a excepção e não a norma - Deus permite que certos males aconteçam tendo em vista bens maiores que, para nós homens, não são de todo evidentes. Só à luz da Fé é que sofrer pode ter um grande valor, a razão humana bloqueia diante do sofrimento (sobretudo dos inocentes) e só na Cruz (em que o Inocente por excelência sofre) há uma resposta. O mistério da dor é assim mergulhado num mistério ainda maior: o mistério do Amor de Deus por nós que se manifesta plenamente no Sacrifício de Cristo na Cruz.


A SALVAÇÃO EM CRISTO


Na Cruz está a Salvação, mas porque é que Deus nos quis salvar através de um Sacrifício doloroso? Ao meditar na Paixão de Cristo podemos entrever algumas das razões pelas quais o sofrimento foi o instrumento escolhido para a nossa salvação. Primeira razão: para nos manifestar a desordem causada pelos nossos pecados e a necessidade de reparar essa desordem, assim se manifesta a perfeita justiça de Deus que podendo salvar o homem de mil outras maneiras escolheu a Cruz para reparar perfeitamente a desordem infinita do pecado. O pecado é uma desordem sobretudo da vontade (que se afasta de Deus que é o Bem Supremo e Infinito, e se apega aos bens criados inferiores e finitos) e por isso é que a reparação do pecado exige uma obra reparadora contra a vontade, ou seja, dolorosa. Eis a razão pela qual a Paixão de Cristo é dolorosa, porque é uma obra de reparação pelo pecado. Segunda razão: para nos manifestar a grandeza do amor de Deus por nós e o preço das nossas almas - que custaram o sangue precioso de Jesus. Terceira razão: para nos inspirar uma grande dor e arrependimento pelos nossos pecados que são a causa dos sofrimentos de Cristo. Será que, se Deus nos tivesse salvado de outra maneira, nós conheceríamos assim tão bem a gravidade e o horror do pecado: ofensa infinita à Bondade Infinita? Cristo salvou-nos na Cruz e não foi sobretudo pelo seu sofrimento, mas foi principalmente pelo seu amor infinito pela Glória de Deus e por cada um de nós. É o Amor que nos salva.


Se o pecado consiste em amar mais as coisas finitas e inferiores do que o Bem Supremo e Infinito que é Deus - o único bem capaz de satisfazer o desejo infinito do coração do homem -, então para reparar o pecado é preciso um acto sobrenatural de amor de Deus acima de todas as coisas criadas. É o Amor que nos salva. Na sua agonia no Jardim da Oliveiras, Cristo viu todos os crimes passados e futuros, até os dos seus carrascos. Cristo viu que ia ser abandonado pelos seus amigos mais íntimos, viu todas as perseguições, as apostasias, os ódios e a infinita gravidade das ofensas feitas a Deus. Foi por isso que Jesus sofreu na sua alma humana todos os males e ofensas cometidas contra Deus, seu Pai, proporcionalmente ao seu amor pelo Pai e por cada um de nós, como um irmão mais velho que sofre ao ver o seu pai ofendido pelos seus irmãos mais novos que ele sempre se esforçou - pelo exemplo e pelas palavras - por ensinar a fazer o bem.


Jesus tomou sobre si os crimes dos homens. Por momentos, o horror do mal e de todos os vícios reunidos pareciam asfixiá-lo: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mt 27, 46). Nessa escuridão, nesse abandono, Nosso Senhor realizou o seu grande acto de amor. Em plena angústia, Cristo amou o seu Pai acima de todas as coisas (acima da sua vida e das suas glórias pessoais) e amou- nos até dar a sua vida pela nossa salvação, a única coisa que lhe custou foi não poder salvar mais almas, porque muitas haviam de recusar essa salvação. O acto de amor de Cristo na Cruz reparou e compensou abundantemente todos os ódios. A obediência que esse acto implica compensa aos olhos de Deus todas as revoltas. As humilhações da Paixão resgatam todos os actos de orgulho dos homens. A doçura do Crucificado repara todas as raivas e os seus sofrimentos corporais pagam por todos os pecados de sensualidade.


É o amor que pomos no que fazemos que dá valor aos nossos actos. Qualquer acto de amor realizado por Nosso Senhor tem um valor infinito, porque Jesus é verdadeiro Deus (a segunda Pessoa divina da Santíssima Trindade) e verdadeiro Homem (que assumiu uma natureza humana), sendo Deus os seus actos têm um valor infinito e sendo homem pode reparar por nós homens os nossos pecados, mas para reparar de maneira abundante e perfeita a desordem causada pelos nossos pecados não foi com um acto qualquer de amor (um sorriso ou um gesto simpático), mas pela Cruz que Jesus nos salvou. Foi esse acto de Caridade do Filho de Deus Encarnado que salvou o mundo. É esse mesmo acto que ainda hoje nos salva e que dá vida a todas as almas. “Sabemos que Cristo, ressuscitado de entre os mortos, já não morrerá” (Rom 6, 9), “e viverá para sempre para interceder por nós” (Heb 7, 25).


É o acto de amor de Cristo que nos continua a defender das seduções do mundo e que nos protege do diabo. Quem pode duvidar da eficácia do amor de Cristo e da sua omnipotência contra o mal? É o testemunho de São Paulo: “Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? (…) Estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos nem os principiados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso” (Rom 9, 35-39).


Falta agora que a obra redentora de Cristo seja comunicada em abundância aos homens. E foi exactamente por isso que Cristo fundou a Igreja e instituiu os sacramentos: para continuar a obra da salvação no espaço e no tempo. Aliás, foi na Cruz que nasceu a Igreja porque do lado aberto de Cristo escorreu o sangue e a água (Jo19, 34), ou seja, o mais excelente dos Sacramentos, a Eucaristia, simbolizado pelo sangue; e o primeiro e mais necessário dos sacramentos, o Baptismo, simbolizado pela água. Cristo é a Cabeça da Humanidade que é chamada a fazer parte do seu Corpo que é a Igreja. Cristo é a Cabeça da Igreja, é d’Ele que deriva a vida da graça, da mesma maneira que no corpo, através do seu influxo vital pelo sistema nervoso, a cabeça comanda o resto dos membros, e da mesma maneira que na vinha a seiva escorre do tronco para os ramos: “Eu sou a videira e vós sois os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15, 5). As almas unidas a Cristo pela Fé e pela Caridade formam com Ele um só corpo a que chamamos o Corpo Místico. A união dos membros do Corpo Místico com Cristo e dos membros entre eles é uma união sobrenatural e misteriosa que só Deus conhece perfeitamente.


O acto principal do Corpo Místico de Cristo é a oblação do Sacrifício da Missa. Os padres oferecem o sacrifício em nome dos fiéis, mas é sobretudo Cristo que se oferece através do ministério dos padres. Os padres são o instrumento de Cristo como um pincel nas mãos de um pintor. Se os padres podem tornar Cristo presente na Eucaristia é porque eles são os instrumentos de Cristo cujo poder eleva as capacidades dos padres para realizaram um tão grande Sacramento – o pincel por si mesmo também não faz um excelente quadro sem o génio e a técnica do artista. Na verdade, é sempre o mesmo acto único de oblação do Sacrifício da Cruz que se renova de maneira incruenta (sem crueldade, sem derramamento de sangue) na Missa, é o acto sempre vivo no coração de Jesus que não deixa de interceder por nós e de se oferecer por nós ao Pai que se renova em cada Missa.


A Missa é a renovação incruenta do Santo Sacrifício da Cruz. Na Cruz o corpo e o sangue de Cristo foram separados de maneira violenta e sangrenta, na Missa essa separação passa-se à frente dos nossos olhos de maneira sacramental, porque o padre consagra separadamente o corpo e o sangue de Cristo. Assim quando o padre levanta a Hóstia Consagrada é como se Cristo estivesse erguido na Cruz diante de nós, e, separadamente, quando o padre levanta o cálice é como se recolhesse o sangue que escorre do corpo de Cristo na Cruz. Os sacramentos são sinais visíveis de realidades invisíveis e realizam a graça que significam. Assim, a consagração separada do corpo e do sangue de Cristo é a separação sacramental do seu corpo e do seu sangue na Cruz, ou seja, a sua morte que nos salva. O Sacrifício de Cristo na Cruz continua na sua Igreja através da celebração da Santa Missa. Cristo continua a oferecer-se por nós. Foi por isso que instituiu a Santa Eucaristia: para perpetuar o seu Sacrifício e nos aplicar os seus frutos.


Percebemos agora que há uma perfeita continuidade entre:

Deus ➡️ Cristo ➡️ Igreja ➡️ Sacramentos ➡️ Almas.


Através dos sacramentos da Igreja entramos actualmente em contacto com Cristo que nos salva. A vida propaga-se no Corpo Místico de Cristo através dos sacramentos: através da absolvição na confissão que ressuscita os membros mortos do Corpo Místico, através da Eucaristia que conserva a vida da graça e renova o fervor que o pecado venial diminui e fragiliza, e enfim, através de todas as inspirações interiores e graças que o Senhor nos dá. Cristo é uma fonte de vida divina que escorre até nós, através dos sacramentos, até desaguar no mar da vida eterna. Quantas vezes já sentimos este poder de Cristo na vida de cada um de nós, por exemplo, quando recebemos a comunhão ou a absolvição, ou na vida social da Igreja que permanece jovem e que é sempre uma fonte de santificação no meio de tantas perseguições? Temos de ter confiança no poder redentor de Cristo que é a base da nossa vida sobrenatural!


Portanto, para encontrar a salvação temos de nos dirigir à Cruz: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve” (Mt 11, 28-30). O jugo do Senhor é a Cruz. As nossas cruzes são os nossos sofrimentos e quando a Cruz nos visita é Jesus que vem ao nosso encontro para nos salvar. Cristo quer curar-nos dos nossos pecados e elevar-nos ainda mais alto até à santidade.


Na continuação deste artigo analisaremos o sofrimento à luz da fé.


Padre Miguel Castelo Branco, FSSP

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