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Porquê oferecer os nossos sofrimentos a Deus? (II/III)

Parte II

Homem carrega a sua cruz

O SOFRIMENTO À LUZ DA FÉ


Ninguém gosta de fazer sacrifícios, os sacrifícios custam, mas nós sabemos perfeitamente que os sacrifícios são necessários. Os pais fazem sacrifícios pelos filhos, renunciam a férias para pagar boas escolas, renunciam a satisfazer os caprichos dos filhos – que muitas vezes é a atitude mais fácil para calar uma birra ou evitar uma discussão – para os educar, renunciam ao tempo livre para se dedicarem a ajudar os filhos na escola e apoiá-los nas suas várias actividades, enfim, os filhos são devedores eternos dos pais. Os soldados também se sacrificam pela Pátria. É uma profissão nobre na qual os homens dão a vida pela defesa da Nação, ou seja, pela defesa da família das famílias. Os militares que morreram pela Pátria, morreram por muitas pessoas que não conheciam e o seu sacrifício permitiu a muitos de beneficiar de uma via boa e segura.


Também os homens maus e desordenadamente ambiciosos fazem sacrifícios. Basta ver algumas das pessoas que investem na Bolsa, capazes de investir quantidades absurdas de dinheiro e arriscando a ruína para tentarem alcançar um lucro altíssimo, dinheiro fácil e rápido - dizem eles - ainda não perceberam a esperteza saloia do diabo que convence com a facilidade. Judas, péssimo negociador, trocou Nosso Senhor por trinta moedas de prata que nem chegou a gastar.


Outros são capazes de passar horas e horas no ginásio a fazer esforços intensos e repetitivos, fazem dietas extremas e privam-se de coisas boas e legítimas da vida para terem um “corpo perfeito”. Se estas pessoas passassem tanto tempo a tratar da alma como tratam do corpo haveria muitos santos atléticos.


Enfim, há até pessoas que sacrificam a honra, a moralidade, a decência e estão dispostos a vender a alma para ascenderem na carreira. Pisam os colegas de trabalho e os amigos como degraus de uma escada para subirem no mundo do trabalho e do sucesso social. Usam as pessoas e amam as coisas, mas devia ser o contrário!


Estas pessoas chegam mesmo a sacrificar a vida eterna por bens terrenos e passageiros que não enchem o coração do homem: prazer, fama, dinheiro, poder… Nenhuma destas coisas preenche o coração do homem que tem um desejo infinito de felicidade que só Deus lhe pode dar. Já dizia Santo Agostinho: “Fizeste-nos para vós Senhor e nosso coração não descansa enquanto não descansar em Vós”.


Estas pessoas, de maneira mais ou menos consciente, adoram ídolos em vez de adorarem o verdadeiro Deus e perdem o tempo e a eternidade com sujidades. Como o filho pródigo que abusou da liberdade e acabou com os porcos. Trocar o Céu por uma vida limitada de prazer insatisfeito e vício é triste, e mais do que triste, não tem sentido. Mas enquanto vivemos ainda vamos a tempo de nos convertermos e é aqui que entra a questão do sofrimento, porque a conversão custa. A Fé convida-nos a nos associarmos aos sofrimentos de Cristo e isso custa. “O discípulo não é maior do que Mestre”, dizia Nosso Senhor, por onde Jesus passou, pela Paixão e pela morte, também nós temos de passar para entrar na vida eterna.


Como já dissemos, se olhamos para o sofrimento numa perspectiva puramente racional, sobretudo o sofrimento dos inocentes, a razão bloqueia. O sofrimento é absurdo sem a Fé, é mesmo um escândalo! Diante desse escândalo duas atitudes são possíveis para o homem sem fé: a resignação ou a revolta. Para o homem resignado o sofrimento é uma fatalidade que é preciso aceitar: “não há nada que possamos fazer” – diz ele. O homem resignado admite o escândalo. Para o homem revoltado o sofrimento é absurdo, escandaloso e por isso não podemos aceitá-lo de maneira nenhuma. A revolta leva à tristeza, a tristeza leva ao desespero e o desespero leva, muitas vezes, ao suicídio. Os resignados esquecem-se que a Providência divina governa todas as coisas e que tudo o que nos acontece não é por acaso, cada evento da nossa vida esconde um tesouro que Deus nos preparou. O revoltado esquece-se do pecado original e dos pecados pessoais que introduziram a desordem no mundo. Se é o pecado que traz a desordem, só com a graça de Deus é que podemos reparar essa mesma desordem. Tanto o resignado como o revoltado ignoram, por culpa própria, que a solução para o problema está em Deus, que eles recusam obstinadamente.


Felizmente há uma terceira atitude que o homem pode tomar diante do sofrimento: a generosidade. A generosidade é um meio termo, que não é uma mediocridade, entre dois extremos opostos. É um meio termo elevado entre dois erros opostos: a revolta e a resignação. A generosidade é como um cume de uma montanha que se eleva entre dois vales profundos e tenebrosos. Mas esta atitude só é possível se tivermos Fé. Só uma visão sobrenatural permite ao homem ser generoso diante do sofrimento. Para o homem de Fé o sofrimento é uma força corredentora que nos torna participantes dos sofrimentos de Cristo. Mesmo o sofrimento dos inocentes é uma configuração aos sofrimentos de Cristo – o Inocente por excelência. Aliás, poucos dias depois de celebrar o Natal, em memória de todos os bebés martirizados (por ódio a Cristo) pelo rei Herodes, a Igreja celebra a festa dos Santos Inocentes. Quantos bebés abortados não são também mártires de Cristo?


Com a Fé o sofrimento passa a ser uma ocasião privilegiada para nos unirmos a Cristo na Cruz e assim glorificarmos a Deus, salvarmos a nossa alma e contribuir para a salvação de muitas almas. A Fé abre perspectivas imensas quanto ao sofrimento. Os santos viam os sofrimentos como uma graça, como uma oportunidade para ganhar méritos por quem mais precisa. Deus, que é mais íntimo a nós do que nós mesmos sabe melhor do que nós o que é melhor para nós. Na sua infinita Sabedoria a Providência nunca deixa que sejamos provados acima das nossas forças (1 Cor 10, 13). Se Deus permite que um sofrimento (a dor ou a morte) surja na nossa vida é preciso saber vivê-lo com generosidade. É mais fácil dizer do que fazer, mas se fixarmos o nosso olhar em Cristo o seu exemplo na Cruz há de nos encorajar.


O sofrimento não é bom em si mesmo, mas desde que Cristo o escolheu como instrumento da salvação, o sofrimento tornou-se bom e amável. Desde então, os santos amam a dor como participação dos sofrimentos de Cristo, por causa de Cristo e não por causa da dor em si mesma, que permanece um mal horrível, mesmo para Jesus: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas que não se faça a minha vontade, mas a tua” (Mc 14, 36).


As nossas dores são as nossas cruzes: pequenos reflexos da Cruz de Cristo. Felizes aqueles que levam a cruz com Jesus, porque já não são eles que levam a cruz, mas é a Cruz que os leva, como as asas levam o pássaro. A Cruz leva-nos ao Céu: “Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há de revelar-se em nós. Pois até a criação se encontra na expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. De facto, a criação foi sujeita à destruição (…) na esperança de que também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores do parto até ao presente. Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo (mortal). De facto, foi na esperança (da vida eterna e da ressurreição final) que fomos salvos. (…) Sabemos que tudo contribuiu para o bem daqueles que amam a Deus (…)” (Rom 8, 18-28).


No entanto, há uma pergunta que permanece: se a Paixão de Cristo é mais do que suficiente para salvar toda a humanidade, porque é que nós cristãos também temos de sofrer? A permissão divina dos sofrimentos dos filhos adoptivos de Deus, que são os cristãos autênticos, não se pode perceber enquanto não se considerar o amor divino como uma amizade sobrenatural. De facto, a felicidade para a qual Deus nos criou e nos salvou, consiste numa amizade sobrenatural entre Deus e o homem. É Deus que tem a iniciativa desta amizade pelo dom da graça que oferece a cada um de nós. A graça é a semente de vida eterna que é depositada por Deus no nosso coração, a graça eleva o nosso ser estabelece-nos numa amizade com Deus.


A amizade com Deus, como todas as outras amizades humanas, é um amor de benevolência (querer o bem do outro) livre e recíproco. A verdadeira amizade implica querer livremente e mutuamente o bem do outro. Isto explica porque é que nós não ganhamos amigos de maneira interessada. Uma amizade implica sempre a partilha de um bem que nos torna parecidos e mais unidos aos nossos amigos. A amizade implica passar tempo junto dos nossos amigos para fortalecer as amizades – com Deus isto faz-se através da vida de oração, da comunhão sacramental e das boas obras. Todas as amizades se fundam sobre um bem comum: os amigos que partilham a paixão pelo mesmo clube de futebol e vão juntos ao estádio (partilham um bem agradável); os amigos do trabalho que partilham os mesmos projectos e desafios, que só serão realizados com sucesso, se houver entreajuda (partilham um bem útil); os casais que partilham a vida familiar e que têm o projeto comum da geração e educação dos filhos (partilham um bem honesto). Enfim a partilha de bens diferentes funda amizades diferentes, consoante a nobreza do bem partilhado a amizade será mais ou menos forte, ou mais ou menos virtuosa e elevada. A vida da graça, a partilha da Fé e da Caridade com Deus e com os outros cristãos, funda uma amizade sobrenatural profunda (partilham um bem sobrenatural excelente: a vida divina).


Depois destas considerações sobre a amizade percebemos melhor que se a amizade com Deus suprimisse todos os sofrimentos e a morte (consequências do pecado) ela seria uma amizade interessada e supérflua, seria uma falsa amizade. Se assim fosse nós não amaríamos Deus por Ele mesmo, mas pelo bem-estar que Ele nos dá. Se assim fosse muitos permaneceriam fiéis a Deus não por amizade, mas por interesse imediato, reduzindo Deus a um bem útil e não ao Bem Supremo, o único bem capaz de satisfazer o nosso desejo infinito. Portanto, deve ser à luz da salvação considerada como uma amizade com Deus que, ainda que Jesus tenha reparado por nós os nossos pecados, Cristo quer que nós participemos livremente e pessoalmente na sua Redenção, para que assim a salvação nos seja comunicada, a nós e muitos outros com os quais somos chamados a ser um só em Cristo. A graça de Cristo que tem sempre o primeiro lugar na obra da salvação. Na verdade, se aderimos livremente à Cruz de Cristo é porque somos movidos interiormente pela graça de Deus e porque colaboramos com essa graça.


A vida sobrenatural que recebemos de Jesus através da graça - e que nos une a Ele - só se manifesta plenamente e eficazmente quando os membros do Corpo Místico levam com generosidade as suas cruzes pelo bem sobrenatural de todos. Assim todos contribuem para a salvação, não só pessoal, mas também dos seus irmãos na Fé, e mesmo de todos os homens fora das fronteiras da Igreja, mas que a graça de Deus também toca e converte.


Os cristãos são chamados a serem amigos do Salvador tornando-se, de certa forma, corredentores através da união à Paixão de Cristo para se salvarem, para salvarem os outros e por amor d’Aquele que nos amou primeiro no sofrimento: “Agora, alegro-me nos sofrimentos que suporto por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja” (Col 1, 24), a única coisa que falta à Paixão de Cristo é a nossa participação livre nela.


“Sabemos que tudo contribuiu para o bem daqueles que amam a Deus”. O sofrimento vivido com generosidade pode ser muito fecundo, não só para nós, para a nossa purificação e desapego de tudo o que é superficial, mas também para os outros que mais precisam dos méritos da nossa cruz suportada com amor. Para percebermos isto precisamos de compreender como é que se comunicam as graças no Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja. Tais considerações serão desenvolvidas na terceira e última parte deste artigo.


Padre Miguel Castelo Branco

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