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Visão Sobrenatural

Encarar os acontecimentos da nossa vida de maneira sobrenatural

Visão sobrenatural

Há dias em que temos dificuldade em encarar os acontecimentos da nossa vida de maneira sobrenatural. Isto acontece sobretudo quando somos contrariados, ou seja, quando a realidade não corresponde aos nossos desejos, e quando tudo à nossa volta parece perdido (ou sem sentido). Nestas situações desesperantes temos a tendência – eu diria mesmo: a tentação – de reduzir a realidade aos nossos horizontes humanos, à baixeza da nossa inteligência que sem a luz da fé não consegue ver para lá das aparências.


No espetáculo do mundo de hoje, um mundo secularizado e longe de Deus, é difícil ser católico. Parecemos estranhos porque a grande maioria das pessoas não pensa nem vive como nós. A cultura deixou de ser profundamente influenciada pelo Evangelho e a sociedade, com as suas “estruturas de pecado”, empurra-nos no sentido do vício e da perdição; e não no sentido da virtude e do Céu. Ser católico atualmente é estranho porque temos a sensação de não nos sentirmos normais, estamos sempre, ou quase sempre, a remar contra a corrente. Por vezes, temos a tentação de nos questionarmos a nós mesmos: “Será que sou eu que estou errado?”. Isto é uma tentação diabólica, porque a Fé é incompatível com a dúvida. A dúvida põe em causa a certeza da Fé. Ora, a certeza da Fé não vem das nossas próprias forças e raciocínios; a Fé vem de Deus que não se engana nem nos engana. A Fé é uma adesão da inteligência, movida pela graça, às verdades reveladas por Deus, por isso é que “mil dificuldades não fazem uma dúvida” como dizia o Cardeal Newman. Podemos ter algumas dificuldades em compreender as verdades da Fé, mas não podemos ter dúvidas. Enfim, para ser católico nos dias que correm é preciso ter convicções fortes, uma vida espiritual e sacramental regular e sólida, e também uma preparação intelectual à prova de “tempestade”. Numa palavra é preciso ser: “firmes na fé” (1 Cor 16, 13). É um erro idealizar o passado ao ponto de se achar que “d’antes era fácil guardar a fé”, não nos deixemos enganar, antes como agora a fé exige sempre um combate espiritual.


Diante da sociedade contemporânea, onde Deus parece ter sido expulso para a esfera privada e onde o individualismo materialista reina triunfante, parece impossível termos uma visão sobrenatural das coisas, todos os esforços apostólicos parecem vãos. Sobretudo quando vemos que há uma crise no seio da própria Igreja de Deus. A Igreja é Santa, mas não sem pecadores. A Igreja é indefetível, mas os homens são falíveis. Uma árvore pode estar de boa saúde mesmo se alguns dos seus ramos estão secos. A Barca de Pedro nunca se há de afundar, mas é perturbada pelas ondas e pode até meter alguma água. Contrariamente ao que possamos pensar, estas imagens pouco animadoras podem alimentar a nossa oração: que diríamos nós se tivéssemos assistido à paixão e morte de Cristo na Cruz? Uns diriam “coitado, falhou na sua missão” ou ainda “até era bom homem e tinha boas intenções, mas foi tudo por água abaixo”. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e deve passar pelas mesmas etapas que a sua Cabeça: Paixão, Morte e Ressurreição. Não teremos nós perdido a visão sobrenatural da realidade?


Certamente gostaríamos de um mundo à nossa medida, onde a Igreja triunfasse com grande brilho e força, onde o Reino Social de Nosso Senhor Jesus Cristo se estendesse até ao mais ínfimo aspecto do nosso quotidiano e onde a graça de Cristo abundasse no mais íntimo dos corações e das inteligências dos homens. A constatação da degradação actual da sociedade e de alguns membros da Igreja de Cristo, sobretudo no que diz respeito à fé e à moral, pode levar-nos ao desespero se não tivermos uma visão sobrenatural das coisas. Mas qual é, afinal, o fundamento sobrenatural para esperar contra toda a esperança? (Rom 4, 18) A resposta da fé é simples: a Misericórdia e a Omnipotência divinas. A Providência faz tudo concorrer para o bem daqueles que amam a Deus (Rom 8, 28), mesmo as contrariedades mais duras e mais imprevistas, até mesmo o pecado, diria Santo Agostinho.

Escutemos o Evangelho! Quem reconheceu a divindade de Jesus há dois mil anos na Palestina? A resposta da Sagrada Escritura é a seguinte: foram as almas de oração. Nossa Senhora, São José, o velho Simeão, a profetisa Ana, um jovem puro (São João Evangelista) e alguns homens justos e piedosos que meditavam na palavra de Deus e que esperavam o Messias. Foram os pobres do Senhor (os chamados anawim) que puderam reconhecê-lo. Para ver além das aparências e dos fracassos humanos, para contemplar a vitória da caridade, a vitória de Cristo, a vitória do Bem sobre o Mal é preciso uma vida espiritual, uma vida de oração, ou seja, uma vida regular de intimidade com Deus. Eis o segredo para permanecermos firmes na fé: silêncio e contemplação. Como disse Nossa Senhora em Fátima que nos convida sempre a voltar ao Evangelho: “Rezai, rezai muito!”


Quem teve fé que Jesus era o Messias mesmo quando estava suspenso na Cruz? Só Nossa Senhora! E os outros que o seguiam e o aclamavam na sua entrada triunfal em Jerusalém, onde estão? Fugiram? Não teremos também nós sido cobardes? Na Cruz, Jesus grita “tudo está consumado!” (Jo 19, 30), tudo se cumpriu: isto significa não só que as profecias foram realizadas, mas também que elas se cumpriram de maneira tão admirável e elevada, tão divina, que ultrapassa todas as expectativas do povo de Israel. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1, 11). Jesus é verdadeiramente o Messias, o enviado do Pai para libertar o povo da escravidão do pecado, o Rei dos Judeus como estava escrito no patíbulo, no entanto, elevado na Cruz às portas da cidade, bem à vista de todos, ninguém o reconhece como tal. As profecias do Antigo Testamento são tão claras! (cf. Is 52-54) Como é que os judeus não O reconheceram? Os judeus esperavam outra coisa: um triunfo temporal, um sucesso imediato e espalhafatoso, uma vitória política, um sucesso segundo os seus gostos e as suas ideologias… um Messias à medida dos seus caprichos. Mas não foi isso que Jesus veio trazer, não foi a felicidade meramente temporal que o Messias nos trouxe. Foi a vida eterna começada desde já aqui em baixo na terra, sob o véu da fé e que há de se converter e prolongar em visão beatífica, em alegria infinita no Céu por toda a eternidade!


Jesus cumpriu as profecias, melhor ainda cumpriu plenamente a vontade do Pai: redimir o género humano. Cristo bebeu o cálice da amargura até à última gota, redimiu todos os nossos pecados, não sobrou um! Tudo está consumado com uma perfeição absoluta. Temos de aprender com Jesus a fazer até ao fim a vontade do Pai do Céu. Na agonia de Jesus no Jardim das Oliveiras temos o modelo perfeito da oração cristã, da plena conformidade à vontade do Pai: “Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua!” (Mc 14, 36 ou Lc 22, 42). Deus é que sabe o que é o melhor para nós, quando é que vamos deixar de pôr obstáculos à sua graça? A nossa salvação custou o sangue preciosíssimo de Jesus, mas a julgar pela minha vida a minha primeira reacção seria: que desperdício... Mas foi a vontade do Pai que o seu Filho desse a vida por nós (Jo 3, 16).


Jesus cumpriu com perfeição a sua missão, mas a sua missão continua hoje na Igreja. Jesus prolonga a sua redenção através de nós e chama-nos a nos unirmos ao seu Sacrifício Redentor. Tudo está consumado na Cruz, todas as graças necessárias para as gerações passadas, presentes e futuras foram conquistadas por Cristo na Cruz, agora já só falta distribuir essas graças pelas nossas almas. Através do Santo Sacrifício da Missa Jesus continua a sua obra redentora, aplicando as graças por Ele merecidas na Cruz aos peregrinos deste vale de lágrimas. Até ao fim do mundo, enquanto se celebrar a Santa Missa o amor de Deus espalhar-se-á por toda a parte e haverá no mundo mais amor do que ódio.


Não façamos como os fariseus e os escribas, que fizeram um Messias à sua medida e que esperavam d’Ele um triunfo temporal e imediato. Temos de ver a Igreja, o mundo e a vida com os olhos da fé. Como diz Pascal temos de ver as coisas não segundo a perspectiva dos corpos e da matéria, nem dos espíritos e da inteligência, mas do ponto vista superior e sobrenatural da caridade, que supera e engloba todas as outras dimensões da nossa existência humana. Na Cruz, segundo o ponto de vista da inteligência e da riqueza temporal, Jesus está humilhado e a nossa visão natural não consegue ver o Redentor, mas segundo a perspectiva da caridade Jesus é Rei, e reina pela Cruz redimindo todo o género humano tomando sobre si as nossas iniquidades e reconciliando-nos com o Pai. É preciso ver com os olhos da fé todos os acontecimentos da nossa vida, especialmente os mais duros e inesperados. Meu Deus, eu creio, mas aumentai a minha fé!

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