Como pode Cristo ser ainda Vítima?
O mistério do Cordeiro Imolado e a presença eterna do sacrifício de Cristo na Santa Missa.

Depois da Ressurreição, Jesus já não pode sofrer nem morrer. Está glorificado à direita do Pai, com o seu Corpo, a sua Alma e a sua Divindade.
Então, como podemos dizer que Cristo continua a ser vítima?
Porque, embora Jesus já não morra, o seu sacerdócio permanece eternamente. Como diz a Carta aos Hebreus (7,24-25):
«Ele, porém, possui um sacerdócio que não passa, porque permanece para sempre. Por isso, pode salvar perfeitamente aqueles que, por meio dele, se aproximam de Deus, pois está sempre vivo para interceder por eles.»
Jesus ressuscitado já não oferece novamente a sua vida num novo sacrifício cruento. O sacrifício da Cruz aconteceu uma única vez e é definitivo. Mas Cristo glorioso permanece eternamente diante do Pai como Sacerdote e Vítima, intercedendo por nós.
Isto aparece de forma impressionante no Apocalipse (5,6). São João contempla no Céu Cristo sob a figura de um Cordeiro Imolado:
«Vi um Cordeiro, de pé, como que imolado.»
Que grande mistério! O Cordeiro está de pé: está vivo, ressuscitou e está glorioso. Mas aparece «como que imolado»: leva para sempre as marcas da sua imolação. A visão do Apocalipse revela-nos, assim, que o sacrifício de Cristo permanece eternamente diante do Pai. Por isso, depois da Ressurreição, quis conservar no seu Corpo as cinco chagas da Paixão. Quando Tomé duvidou de que fosse realmente Jesus, o Senhor mostrou-lhe as mãos e o lado:
«Traz aqui o teu dedo: vê as minhas mãos; traz a tua mão e mete-a no meu lado.»
(João 20,27)
As chagas gloriosas de Cristo recordam-nos que o sacrifício de Jesus não foi apagado pela Ressurreição: foi levado à glória. Cristo já não sofre nem volta a morrer, mas permanece eternamente como o Cordeiro imolado, oferecendo ao Pai, de modo perpétuo, o único sacrifício do seu amor por nós.
E esta verdade da nossa fé manifesta-se de uma forma muito bela na liturgia da Santa Missa, particularmente no momento do ofertório. Quando o sacerdote oferece o pão e o vinho a Deus, que serão consagrados e se tornarão o Corpo e o Sangue de Cristo, realiza alguns gestos carregados de significado.
O sacerdote, depois de pronunciar as respectivas orações, faz o sinal da cruz com o pão e depois com o cálice, precisamente antes de os colocar sobre o corporal. Este gesto recorda-nos o carácter sacrificial da Santa Missa: Cristo tornar-se-á presente no altar como vítima, oferecendo-se por nós.
Com efeito, a palavra «hóstia» vem do latim hostia, que significa «vítima» ou «oferta sacrificial». Por isso, na Hóstia consagrada, Jesus apresenta-se a nós como Cordeiro imolado.
E há ainda outro pormenor precioso: o pano litúrgico sobre o qual são colocados o pão e o cálice chama-se corporal. O seu nome faz referência ao Corpo de Cristo e evoca também o lençol que cobre o corpo de uma pessoa falecida.
Assim, até os pequenos gestos e objectos da liturgia nos ajudam a contemplar uma verdade imensa: o Cristo que morreu na Cruz é o Cristo que ressuscitou; e o Cristo ressuscitado é o Cordeiro imolado que vive para sempre e intercede por nós diante do Pai, como Sacerdote e Vítima.