Como relacionar-se com o anjo da guarda?
Conhecer, invocar e amar aquele que Deus colocou ao nosso lado para nos conduzir à salvação.

COMO ME RELACIONAR COM O MEU ANJO DA GUARDA?
A 2 de outubro, comemoramos a festa dos Santos Anjos da Guarda. Mas quem são estes anjos? E como nos podemos relacionar com eles?
As primeiras e mais nobres criaturas criadas por Deus foram os Anjos: seres puramente espirituais, de uma beleza e de um poder formidáveis. Cada um deles foi criado bom, sábio e livre para fazer uma escolha definitiva: a favor de Deus ou contra Ele.
Aqueles anjos que escolheram definitivamente o Senhor permaneceram ao Seu serviço e na Sua presença. Fazem constantemente a Sua vontade, glorificam o Senhor, servem-n’O, louvam o Seu nome e intercedem por nós. Os anjos que optaram pela rebelião contra Deus são aquilo a que chamamos demónios.
Os anjos da guarda
Uma das categorias de anjos é constituída pelos chamados «anjos da guarda».
Segundo a doutrina católica, todo o cristão tem um anjo designado por Deus com a missão de o proteger e conduzir pelo caminho da salvação. Esta doutrina encontra fundamento nas Escrituras, quando Nosso Senhor diz para não desprezarmos os pequeninos, porque «os seus anjos vêem continuamente a face de meu Pai que está nos Céus» (Mt 18, 10).
Por isso, é uma coisa muito boa cultivar uma devoção ao nosso Anjo da Guarda e ter consciência da sua presença na nossa vida.
Que consolador é saber que, perto de nós, há um espírito que, do berço ao túmulo, nunca nos abandona, nem mesmo quando nos atrevemos a pecar! Este espírito celestial guia-nos e protege-nos como um amigo, um irmão.
É ainda mais consolador saber que este anjo ora sem cessar por nós, oferece a Deus todas as nossas boas ações, os nossos pensamentos e os nossos desejos, quando são puros.
Desenvolver uma relação com o Anjo
No entanto, a influência que o nosso bom anjo exerce no nosso dia a dia depende de dois fatores.
Em primeiro lugar, a sua influência depende da permissão divina e do plano providencial de Deus para nós. Deus comunica ao anjo aquilo que pretende de nós, aquilo que Ele quer permitir que nos aconteça, aquilo que não permite que nos aconteça, as luzes que quer que recebamos por seu intermédio, etc.
O anjo protege-nos das nossas próprias imprudências e das consequências das nossas más decisões; guia-nos nas circunstâncias da nossa vida, dá-nos ideias e ajuda-nos de mil e uma formas, com tal subtileza que, na sua humildade, a maior parte dos seus benefícios passa-nos despercebida. Tudo isto ele faz na medida em que Deus o permite, segundo o Seu plano providencial de amor para nós.
De facto, se somos tentados pelo inimigo ou se passamos por determinada adversidade, é porque Deus comunicou ao nosso anjo que quer que passemos por tal provação, para nos dar ocasião de mérito e de correção.
O segundo fator que determina o grau de influência do nosso anjo na nossa vida está relacionado com a nossa vida de oração, em particular com a forma como recorremos a ele e nos confiamos à sua proteção. Ou seja, quanto mais recorrermos a ele, quanto mais o envolvermos nas nossas decisões, nas nossas ações e nas nossas relações com o próximo, mais presente se torna e maior liberdade de ação terá na nossa vida.
Se nos parece que o nosso Anjo da Guarda não está a ser de grande ajuda, talvez tenhamos de nos perguntar: «Com que frequência comunico com ele?»
Tanto os anjos como os demónios não conseguem ler a nossa mente. Podem procurar adivinhar aquilo que estamos a pensar através dos efeitos externos, das emoções, dos atos, etc. Mas, se queremos que tenham conhecimento de algo concreto, é preciso comunicá-lo — não forçosamente com palavras, porque a oração é, fundamentalmente, uma comunicação espiritual.
Ao aconselhar os seus dirigidos espirituais, São Pio de Pietrelcina dizia: «Não deixe o seu anjo ocioso. Dê-lhe tarefas concretas!»
Dêmos-lhes tarefas concretas. Peçamos ajudas precisas:
«Ajuda-me nesta tarefa. Ajuda-me com a contabilidade, com as crianças, com a cozinha.»
«Protege-me nesta viagem.»
«Guia-me nesta entrevista.»
«Anima-me nesta angústia.»
«Lembra-me desta coisa.»
«Acalma o meu coração.»
Podemos dar um nome ao nosso Anjo da Guarda?
Existem, no entanto, alguns perigos a evitar no nosso relacionamento com eles. Um erro particularmente frequente é o de atribuir ou tentar descobrir o nome do nosso Anjo da Guarda.
A Igreja (1) desaconselha fortemente esta prática por duas razões:
Primeiro, porque não nos cabe a nós dar nomes ou descobrir os nomes de criaturas que estão acima de nós. As Sagradas Escrituras apenas nos revelam os nomes de três deles: São Gabriel, São Miguel e São Rafael. De facto, segundo a tradição bíblica, nomear uma coisa significa reivindicar autoridade sobre ela, coisa que não temos sobre os anjos.
A segunda razão segue-se à primeira: procurar descobrir aquilo que está para além da nossa competência pode ser espiritualmente perigoso. Se nos abrirmos à procura de manifestações extraordinárias e de conhecimentos ocultos, podemos inadvertidamente abrir-nos à ação de espíritos maus.
Por isso, o conselho é simples: não procuremos obter o nome do nosso Anjo da Guarda através de práticas ou experiências espirituais.
Não precisamos de lhe dar um nome. Podemos simplesmente invocá-lo como aquilo que ele é: o nosso Anjo da Guarda, aquele que Deus colocou junto de nós para nos proteger, orientar e conduzir até Ele.
Um amigo, um irmão
Enfim, como conclusão, pode ser muito consolador refletir no intenso amor de caridade que o Anjo da Guarda tem pelo seu protegido. Um amor fraternal. Um amor de predileção.
Isto porque a sua missão está especificamente ligada ao seu protegido. Segundo a opinião de muitos teólogos, no momento da sua criação, no mesmo ato de amor em que respondeu positivamente à graça divina, o nosso anjo fez uma escolha fundamental de servir a Deus, aceitando a missão de ser nosso guardião. Isto, por si só, já demonstra uma grande humildade, por se colocar ao serviço de uma criatura inferior a ele.
Ou seja, a sua glorificação foi o resultado da sua opção por nos amar, por te amar de forma pessoal. É por isso que ele nunca nos abandona, mesmo quando não merecemos a sua companhia. Porque o seu amor por Deus transborda num amor sincero por nós.
Num certo sentido, o nosso anjo é «apaixonado» por nós, ligado a nós até à nossa morte e, pela eternidade, se participarmos com ele na Glória Celeste.
Ele escolheu servir a Deus servindo-nos. Ele escolheu amar a Deus amando-nos.
Excerto de uma carta do Padre Pio sobre os nossos Anjos da Guarda
«Mantém sempre [o teu anjo] diante dos olhos da alma; recorda-te com frequência da presença desse anjo. Agradece, reza, conserva-te na sua constante e boa companhia. Abre-te e confia-lhe os teus sofrimentos. Tem sempre o cuidado de não ofender a pureza do seu olhar; toma conhecimento e fixa bem esta verdade na tua alma: ele é muito delicado, muito sensível. Dirige-te a ele em momentos de suprema angústia e experimentarás os seus efeitos benignos.
Nunca digas que estás sozinha na batalha contra os teus inimigos. Nunca digas que não tens ninguém com quem te possas abrir e confiar. Isso seria uma grande ofensa que se faria a este mensageiro celestial.»
Oração tradicional ao Anjo da Guarda
(LT)
Angele Dei, qui custos es mei, me tibi commíssum pietáte supérna, hodie (ou hac nocte) illúmina, custódi, rege et gubérna. Amen.
(PT)
Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, pois que a ti me confiou a Piedade divina, hoje e sempre me governa, rege, guarda e ilumina. Ámen.
-------------------------------------
Referências:
(1) Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório sobre a piedade popular e a liturgia: princípios e orientações, 13 de maio de 2002, n. 217.