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O tempo cristão e a ordem da vida

Como a fé transforma os nossos horários e devolve sentido ao descanso, ao trabalho e ao início de cada dia

A forma como organizamos os nossos horários não é uma questão meramente prática. Ela revela, muitas vezes de forma silenciosa, o modo como vivemos — e até o modo como acreditamos.


Vivemos num tempo em que o dia se prolonga facilmente pela noite dentro. A invenção da eletricidade e tudo o que se lhe seguiu — televisão, internet e tantos outros meios — fizeram com que a noite deixasse de ser verdadeiramente noite. O dia estende-se, ocupa o espaço do descanso, e o resultado é conhecido: manhãs difíceis, cansaço acumulado e uma vida frequentemente sustentada à base de estimulantes para funcionar e de calmantes para descansar.


Mas a questão é mais profunda do que um simples problema de saúde ou de organização. Porque, afinal, por que razão este modo de vida pode ser visto como pagão ou como sinal de uma vida vivida como se não houvesse fé?


Quem não tem fé não tem esperança. E quem não tem esperança fica prisioneiro do presente. Um presente, porém, angustiado, porque sabe — ainda que de forma confusa — que não se abre para mais nada. Por isso, não conhece verdadeiramente nem a paz nem a alegria: conhece antes a euforia e a distração. Vive sob a pressão de aproveitar tudo, como se tudo fosse sempre pouco e o tempo estivesse a terminar.


É por isso que as horas nunca chegam. Nunca chegam para trabalhar, nem para se divertir, nem para descansar. Tudo se intensifica, tudo se acelera, tudo se consome. Vive-se como se não houvesse amanhã — porque, de facto, para quem não crê, o amanhã último, o da eternidade, já não tem consistência. É como alguém que vive continuamente sob a ameaça de uma sentença já anunciada: há que aproveitar, antes que acabe.


O cristão, pelo contrário, sabe que Jesus é o tudo da sua vida. Vive da fé, da esperança e da caridade, confiado à Providência divina. E, sabendo isto, o seu coração já não está preso ao imediato, mas orientado para Deus, que deve ocupar o primeiro lugar.


Por isso, a vida cristã começa de manhã. Não começa na pressa, nem na distração, mas em Deus. A regra é simples: adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas. E, como dizia Santo Inácio, o homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus, e mediante isso salvar a sua alma. Isto muda tudo, incluindo os horários.


O cristão aprende, então, a deitar-se mais cedo, não por disciplina vazia, mas porque sabe que o dia seguinte começa com um encontro. Ao acordar, cedo, tem o privilégio de se encontrar com Jesus, o hóspede divino da alma, em oração, no interior do seu coração. Há maior privilégio do que começar assim o dia?


E o que faz logo de manhã? Faz as suas orações e dedica um tempo à meditação. Procura aprofundar esse encontro de amizade com Jesus. Parte do Evangelho do dia, ou de outro texto da Sagrada Escritura ou de um bom livro espiritual, e faz algo simples: lê com calma; medita no que leu; e deixa que dessa leitura nasça um diálogo interior com Cristo, como faziam os santos e as personagens bíblicas. Assim, o coração vai-se ordenando e o dia começa com paz.


Deste modo, os horários deixam de ser apenas uma organização exterior e tornam-se expressão de uma vida interior ordenada por Deus.

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