Um díptico Natalício
Uma preparação ao Natal

Para entrarmos no “espírito do Natal”, gostaria de percorrer convosco – Bíblia na mão caso queiram - os dois evangelhos, o de São Lucas e o de São Mateus, que nos dão dois pontos de vista diferentes, mas complementares, do Nascimento de Jesus. É uma espécie de díptico, ou seja, aquelas peças – normalmente de arte sacra ou com fotografias – que se abrem como um livro e que têm em cada um dos lados uma imagem. Podemos imaginar um díptico natalício: de um lado Nossa Senhora com o Menino – imagem pintada por São Lucas; e no outro lado São José com o seu bastão – imagem pintada por São Mateus. Estas duas perspectivas do Natal completam-se uma à outra como se completa o casal da Sagrada Família.
O evangelho de São Lucas relata o nascimento de Jesus do ponto de vista de Nossa Senhora. É uma perspectiva calma, simples e despojada. Não havia lugar na hospedaria, Jesus é posto numa manjedoura e envolvido em panos, Nossa Senhora reza, a Sagrada Família é visitada por pastores das redondezas e os anjos cantam (ver Lc 2, 1-20). A natividade de Jesus passa-se num clima de contemplação e adoração. Maria está à vontade no meio dos pastores e dos animais. Talvez o mundo simples, rural e piedoso fosse o meio a que Nossa Senhora estava habituada. Aliás, a Nossa Mãe do Céu, quando aparece na Terra, parece ter uma predilecção pelos simples como Bernardete em Lourdes ou os pastorinhos em Fátima. De qualquer forma, Maria era de uma família sacerdotal (porque era prima de Santa Isabel que era descendente de Aarão (cf. Lc 1, 5 e Lv 7, 17; 9, 2), portanto pertencia certamente a uma família piedosa e dedicada ao culto de Deus.
«Maria conservava cuidadosamente todas estas coisas e meditava-as no seu coração» (Lc 2, 19). Nossa Senhora guardava todas estas recordações para as rezar e para as transmitir às gerações vindouras. Segundo a tradição, São Lucas recorreu a Nossa Senhora para redigir o seu evangelho – pelo menos é a hipótese mais lógica – e isto explicaria a perspectiva mariana do Nascimento de Jesus relatada pelo evangelista (São Lucas começa o seu evangelho dizendo ter investigado, cuidadosamente, os factos relatados pelas testemunhas oculares (cf. Lc 1, 1-4)).
São Lucas oferece-nos uma imagem quase litúrgica do Nascimento de Jesus: os pastores vêm adorar o Menino, os anjos cantam o Glória e Nossa Senhora dá o perfeito exemplo de adoração. A beleza de Maria e o seu recolhimento marcam todos aqueles que visitam o presépio. À volta de Nossa Senhora reina a ordem, a paz e a harmonia.
No evangelho segundo São Mateus as coisas são bem diferentes! Em São Mateus a figura de São José está em destaque. Neste evangelho, é o pai adoptivo de Jesus que toma as iniciativas e as decisões. A perspectiva que nos é dada no evangelho de São Mateus é outra. Em vez da calma e da harmonia, reinam a angústia, a pressa, a perseguição e até a maldade. É a perspectiva de São José que recebeu a missão de proteger Nossa Senhora e o Menino Jesus do malvado Rei Herodes e da difamação pública. São José protegeu tão bem Nossa Senhora que ela nem se deu conta da perseguição. Maria só guarda boas recordações do Nascimento de Jesus, enquanto São José viveu uma grande angústia e uma profunda preocupação. A tranquilidade e estabilidade que nos é relatada por São Lucas contrasta claramente com a narração de São Mateus: o sonho a meio de uma noite interrompida, a fuga para o Egipto e o massacre dos inocentes (cf. Mt 2, 1-16).
São José era da linhagem real de David, como nos indica a genealogia que inicia o evangelho de São Mateus (ver Mt 1, 1-17). Provavelmente São José guardava na memória os combates e feitos heroicos dos seus antepassados. De certa forma, José vai reviver a luta de David contra Golias, desta vez será José contra Herodes. São José é um guerreiro que não desiste do combate, protegendo e sustentando os seus até à morte… de Herodes. O episódio da fuga para o Egipto parece uma epopeia digna de inspirar bandas-desenhadas e filmes: São José tem de proteger Nossa Senhora e o Menino recém nascido pelos caminhos da Palestina, atravessar o deserto, derrotar bandidos, arranjar refúgios para pernoitar, caçar o jantar… a minha imaginação perde-se numa espécie de western no ano zero. Bem, voltemos ao evangelho!
Da perspectiva de São José foi-nos também conservada a visita dos Reis Magos. A nobreza, a realeza, a etiqueta e as formalidades dos presentes e das prostrações condizem com o ambiente no qual São José, de ascendência real, estaria à vontade. Podemos imaginar São José a acolher os Reis Magos - homens de cultura e chefes com autoridade. Nesse grupo de homens, São José inclui-se facilmente. Os grandes chefes são aqueles que sabem reconhecer os talentos dos seus subalternos e que os fazem crescer. São José é um chefe, é um pai de família que ensinou a sua profissão a Jesus e que era conhecido como o artesão de Nazaré (cf. Mt 13, 55), a quem todos recorriam com frequência. Imaginem o que era, naquela altura, o sistema para tirar água do poço estragar-se… chamava-se José, o chefe que resolve os problemas da comunidade.
Este díptico natalício oferece-nos duas visões do Natal bastante diferentes, mas complementares. São Lucas fala-nos de Nossa Senhora, da sua contemplação e da harmonia que ela instala à sua volta. No evangelho de São Mateus vemos São José no combate, na acção e na dificuldade. Os dois, juntos, contribuem igualmente para que Jesus seja adorado, cada um à sua maneira. A família deve ser uma escola de santidade, de amor a Deus e ao próximo. Diríamos, contra todas as teorias do género, que nos são apresentadas, nestes evangelhos, uma perspectiva feminina e delicada e uma perspectiva masculina e viril do Natal.
São José é um homem nobre, de origem e de coração, é um homem puro. Aliás, só podia ser para ter casado com Nossa Senhora! Pureza e virilidade não são incompatíveis. Na verdade, o homem puro é aquele que é capaz de renunciar aos seus caprichos e às suas paixões desordenadas, é aquele que tem uma vontade forte. O homem puro é um homem viril, capaz de se sacrificar pela família, pela pátria e pela Fé! São José é, para nós homens, um modelo no combate espiritual pela pureza do corpo e da alma. São José também é um homem de oração e é precisamente daí que vem a sua força para agir varonilmente. Nossa Senhora, Mãe e Rainha, ajuda-nos a perceber parte do papel e vocação da mulher: instituir a ordem e a harmonia no lar.
Eis as duas perspectivas que nos podem ajudar a viver melhor este Natal. O Natal é o nascimento de Cristo, Deus feito Homem, que veio à Terra para nos salvar. Celebrar o Natal é celebrar a Nossa Salvação. É celebrar um evento histórico do Passado, o nascimento do Salvador; e um evento do Presente, a salvação que nos é actualmente oferecida por Cristo através da Igreja que Ele fundou e que é o seu Corpo Místico.
Para acolhermos a graça que Deus nos quer dar este Natal – é este o maior presente que podemos receber – é preciso mantermos estas duas dimensões do Natal, que acabámos de ver, e que parecem resumidas no lema de São Bento: “ORA ET LABORA” - “Reza e trabalha”. Sem oração e sacramentos não podemos trabalhar na santidade. É na oração e nos sacramentos instituídos por Cristo que vamos buscar as forças para trabalhar na nossa santificação diária. A oração é uma condição necessária para a vitória no combate espiritual, no combate contra o pecado, contra o orgulho e contra os nossos defeitos dominantes. Sem um esforço de oração e prática das virtudes não teremos um Ano Novo melhor.
Para preparar o Natal, podemos fazer duas resoluções práticas de caridade: Uma para com Deus, por exemplo: podemos rezar uma pequena oração (em família ou sozinhos) todos os dias até ao Natal, fazer um exame de consciência diário, agradecer a Deus as graças recebidas cada dia, etc. O objectivo não é aumentar as devoções (em quantidade), é aumentar a devoção (em qualidade). A devoção é a prontidão para servir a Deus e cumprir a sua vontade; E outra para com o próximo, por exemplo: podemos inscrever-nos para ajudar uma instituição, visitar pessoas da nossa família que estão mais sozinhas, passar mais tempo com um amigo que precisa, etc. Estas actividades não devem ser feitas num espírito de activismo, de pura filantropia, de solidariedade bacoca para “ver e ser visto”. Estas acções devem estar enraizadas na oração e devem ser feitas sob o olhar de Deus que vê aquilo que é feito em segredo (cf. Mt 6, 1-21).
Rezamos por todos e esperamos que tenham um Santo Natal, cheio de graças, na companhia da Sagrada Família:
Com Jesus Nosso Salvador
e Maria Nossa Mãe,
tendo José como Protector,
maior presente ninguém tem!