top of page

As “Índias” de cada um: onde Deus nos chama a semear

São Francisco Xavier e a lógica missionária da Igreja: anunciar Cristo sem reservas, em qualquer “Índia” do mundo, confiando na fecundidade da graça de Deus.

Um semeador saiu para semear a sua semente

« Um semeador saiu para semear a sua semente »


No dia 7 de abril de 1541, São Francisco Xavier aguardava, no porto de Lisboa, a partida do navio "Santiago", que o levaria numa das maiores aventuras missionárias da história da Igreja. Partia a pedido do rei D. João III de Portugal e com a bênção do Papa Paulo III para uma missão tão difícil quanto grandiosa: levar a fé cristã ao Oriente.


O navio chegaria a Goa, na Índia, apenas em maio de 1542, mais de um ano depois da partida. As viagens marítimas da época eram extremamente perigosas. Basta recordar que, na expedição de Vasco da Gama, dos 170 marinheiros que partiram, apenas 55 regressaram. Escorbuto, infeções, fome, sede, falta de higiene, calor sufocante, tempestades e naufrágios faziam parte da realidade quotidiana destas travessias.


Ao embarcar, São Francisco Xavier deixava para trás muito mais do que uma terra natal. Abandonava Navarra, a posição social, a influência, a carreira promissora, os estudos na Sorbonne e todas as honras mundanas que ainda o podiam prender a este mundo. Perante um tal heroísmo, o homem contemporâneo tende a interrogar-se: não será isto excessivo? Porque razão abandonar tudo? Com que finalidade?


A resposta encontra-se no Evangelho: « Um semeador saiu para semear a sua semente ».


Esta frase resume profundamente a vocação missionária da Igreja. Tal como o semeador da parábola, também os cristãos são chamados a espalhar a Palavra de Deus sem reservas e sem cálculos humanos. A semente cai em todo o tipo de terrenos: na boa terra, mas também entre pedras, espinhos e caminhos áridos. Cristo não escolhe apenas uma elite espiritual; semeia por toda a parte, mesmo onde aparentemente não existe esperança de fruto.


A história da Igreja está repleta de homens e mulheres que compreenderam esta lógica do Evangelho. São Filipe Néri, por exemplo, desejava partir para a Índia como missionário, mas foi-lhe dito por um monge: « Filipe, as tuas Índias são Roma ». A missão cristã não se limita aos países distantes ou às grandes epopeias missionárias. As “Índias” de cada um encontram-se frequentemente muito perto: na família, no trabalho, na escola, na universidade ou na comunidade em que se vive.


A parábola do semeador contém, ao mesmo tempo, uma ordem, um aviso e uma promessa.


Antes de mais, trata-se de uma ordem. Cristo confia à sua Igreja a missão de anunciar o Evangelho. Esta responsabilidade pertence certamente aos bispos e aos sacerdotes, mas não exclusivamente. A messe continua grande e os trabalhadores continuam poucos. Também os leigos são chamados a participar ativamente na missão evangelizadora da Igreja.


Mas a parábola contém igualmente um aviso. O papel da Igreja não consiste em anunciar opiniões pessoais ou adaptar a mensagem às conveniências do momento, mas em transmitir fielmente a Palavra recebida de Cristo. O Evangelho encontrará inevitavelmente resistências: corações endurecidos, distraídos pelas preocupações do mundo ou sufocados pelos prazeres e riquezas. Contudo, o dever do semeador não é garantir os resultados, mas semear com fidelidade. Em última análise, quem salva é Deus.


Finalmente, esta parábola encerra uma promessa. Apesar das dificuldades, das crises e das aparentes derrotas, haverá sempre corações dispostos a acolher a Palavra de Deus. A Igreja continuará missionária até ao fim dos tempos. Mais fortes do que as astúcias do demónio ou as seduções do mundo serão sempre a verdade do Evangelho e a ação da graça divina.


A atualidade desta mensagem permanece evidente. Num contexto em que muitos cristãos vivem uma fé enfraquecida ou indiferente, o testemunho simples e coerente continua a ser uma forma concreta de semear. Um acolhimento sincero, uma palavra amável, uma profissão de fé vivida sem vergonha ou um testemunho discreto no quotidiano podem tornar-se terreno fértil para que a Palavra produza fruto.


O exemplo de São Francisco Xavier recorda precisamente isto: a missão da Igreja nasce da convicção de que a semente do Evangelho deve ser lançada generosamente, mesmo quando os resultados permanecem invisíveis aos olhos humanos.

bottom of page