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Férias: tempo para voltar de Jericó a Jerusalém

O verdadeiro descanso começa quando nos deixamos encontrar por Cristo.

Um homem descia de Jerusalém para Jericó
“Um homem descia de Jerusalém para Jericó”


O início do período de férias é, para muitos, um tempo de descanso, de viagem e de mudança de ritmo. Mas pode também ser uma ocasião privilegiada para olhar com mais profundidade para a própria vida espiritual. A parábola do Bom Samaritano, contada por Jesus, oferece-nos precisamente essa chave de leitura.


À primeira vista, trata-se de uma resposta simples à pergunta do doutor da Lei: «Quem é o meu próximo?». Jesus parece apenas ensinar-nos a amar e a cuidar de quem encontramos pelo caminho, isto é, qualquer pessoa a quem podemos fazer o bem. E, de facto, não faltam exemplos semelhantes ainda hoje, mesmo num mundo tantas vezes descrito como indiferente ou sem esperança.


Em 2007, em Nova Iorque, um homem chamado Wesley Autrey, operário da construção civil e antigo militar, aguardava o metro com as suas duas filhas. De repente, um jovem sofre uma crise epiléptica e cai para a linha férrea, mesmo quando o comboio se aproxima a grande velocidade. Sem hesitar, Wesley salta para os carris, deita-se sobre o jovem e protege-o com o seu próprio corpo. O comboio passa por cima deles sem os atingir. Quando lhe perguntaram por que razão arriscou a vida, respondeu simplesmente: «Não tive tempo para pensar. Não podia deixar aquele jovem morrer ali.»

Histórias como esta mostram que a mensagem imediata da parábola — a importância de socorrer o próximo em necessidade — continua viva e é posta em prática. Mas será que Jesus quer dizer apenas isso?


Uma descida com sentido espiritual


O Evangelho diz: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó». Não se trata de um detalhe irrelevante. Jerusalém encontra-se a cerca de 800 metros de altitude, enquanto Jericó está abaixo do nível do mar. Trata-se, portanto, de uma descida real — mas também simbólica.


Jerusalém representa a proximidade de Deus, a “cidade santa”, imagem da Jerusalém celeste. Jericó, por sua vez, foi o primeiro grande obstáculo encontrado pelo povo de Israel ao entrar na Terra Prometida: uma cidade fortificada que impedia a entrada na terra da promessa. Assim, pode simbolizar o pecado, aquilo que afasta o homem de Deus.


Neste sentido, o homem que desce representa cada um de nós. Tal como Adão após o pecado original, também nós fomos feridos e afastados da comunhão com Deus. Encontramo-nos, por isso, numa condição de fragilidade e impotência espiritual.


O homem da parábola não está apenas ferido: está incapaz de se salvar a si próprio.


A impotência do homem ferido


Neste estado, o homem não consegue levantar-se sozinho. Nem o sacerdote, nem o levita conseguem ajudá-lo. Ele permanece caído à beira da estrada, exposto e indefeso.


Do mesmo modo, também nós, feridos pelo pecado, não conseguimos, por nossas próprias forças, regressar plenamente a Deus. Nem os meios humanos — por mais importantes que sejam — nem as estruturas deste mundo, nem a ciência ou a tecnologia podem curar a ferida mais profunda do coração humano.


Só o Bom Samaritano pode salvar.


O Bom Samaritano é Cristo


O Samaritano aproxima-se, cuida das feridas, aplica óleo e vinho, e leva o homem para uma estalagem, pagando tudo o que é preciso para a sua recuperação.


Esta imagem aponta claramente para Cristo. Ele é o único que desce até nós, que trata as nossas feridas com a graça dos sacramentos, que nos conduz à Igreja — essa “estalagem” onde a cura espiritual acontece — e que paga o preço da nossa redenção na Cruz.


É Ele quem continua hoje a dizer: «Eu te absolvo», através do sacramento da Reconciliação.


Um tempo de férias para deixar-se curar


O tempo de férias pode ser uma oportunidade providencial para retomar o caminho espiritual com mais liberdade e serenidade. Longe do ritmo habitual, é mais fácil reconhecer as próprias feridas e aceitar ser cuidado por Cristo.


A cura da alma, tal como o óleo da parábola, não acontece de forma imediata. Exige tempo, paciência e cuidado contínuo. É através da confissão frequente que a graça vai restaurando progressivamente o coração humano, fortalecendo-o e conduzindo-o à vida plena.


Conclusão


A parábola do Bom Samaritano não é apenas um apelo moral à solidariedade. É sobretudo uma revelação profunda da nossa condição e da nossa esperança: estamos feridos, mas não abandonados.

Neste tempo de descanso, deixemos que o Bom Samaritano se aproxime de nós. Não fiquemos caídos à beira da estrada. Ele continua a passar, a curar e a salvar.

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