Temos mesmo de imitar os santos?
Entre a admiração e a comparação, o verdadeiro desafio é deixar Cristo transformar a nossa vida.

Hoje celebramos a Solenidade de Todos os Santos, a festa de todos os santos, isto é, de todos os bem-aventurados que, no Céu, participam eternamente da felicidade junto de Deus. Celebramos, portanto, a santidade nas suas múltiplas formas, tal como nos recorda o Evangelho das Bem-aventuranças.
Recordamos a penitência do Santo Cura d’Ars em favor dos pecadores da sua paróquia, a paciência de São Francisco de Sales, a grandeza de alma de Santa Teresa de Ávila, a humildade de Santa Teresa do Menino Jesus, a pobreza de São Francisco de Assis e a sabedoria de São Tomás de Aquino.
Perante tantos santos e tantas formas de santidade, surge uma questão que sempre me intrigou: em que medida devemos imitá-los?
Como imitar o Cura d’Ars, se somos demasiado apegados às comodidades da vida para suportar os seus jejuns? Como adquirir a paciência de São Francisco de Sales, se somos facilmente dominados pela cólera? Como alcançar os grandes desejos de Santa Teresa de Ávila, se tantas vezes somos pusilânimes? Como cultivar a pequenez espiritual de Santa Teresa de Lisieux, se o orgulho nos acompanha? Como viver a pobreza de São Francisco, se permanecemos tão ligados aos bens deste mundo? E como aproximarmo-nos da sabedoria de São Tomás, quando estamos tão longe da sua inteligência e da sua formação?
Como pode, então, uma pessoa com tantas limitações e tantas outras misérias imitar os santos?
Depois de ouvir e ler diversos mestres da vida espiritual e de reflectir longamente sobre esta questão, encontrei uma resposta que me pareceu particularmente consoladora. Pode resumir-se em três pontos.
1. Os santos não se fizeram num dia.
2. Há sempre uma virtude nos santos que podemos imitar: a caridade.
3. E aqui surge uma conclusão talvez surpreendente: não devemos procurar imitar os santos.
Esta última afirmação precisa, evidentemente, de ser explicada. Não se trata de defender o comodismo ou de abandonar o esforço pela santidade.
Os santos não nasceram santos. Não caíram, em crianças, numa espécie de caldeirão de graça — isso seria mais próprio de Obélix. A santidade é obra de uma vida inteira e, sobretudo, não é tanto uma obra nossa como uma obra de Deus em nós.
São Francisco de Sales, por exemplo, tinha uma natureza muito colérica e irritava-se com facilidade. Ao longo da sua vida, através da oração e de um esforço perseverante sobre si mesmo, aprendeu a dominar a cólera. Isso levou tempo — e é perfeitamente normal que assim seja.
Vivemos, porém, num mundo habituado à rapidez. Tudo parece ter de acontecer imediatamente. Gosto muito de música e, por vezes, quando procuro conteúdos sobre música, deparo-me com promessas deste género: «Aprenda a tocar piano como um profissional em menos de uma hora.» É difícil não sorrir perante uma promessa assim. Sabemos que é irrealista.
E, no entanto, por vezes esperamos de nós próprios algo semelhante no caminho da santidade. Queremos tornar-nos santos rapidamente, como se fosse possível alcançar a perfeição espiritual através de um método intensivo. O tutorial «Como tornar-se santo num dia» funcionaria provavelmente tão bem como o de «Aprender a tocar piano como um profissional em menos de uma hora».
É necessário aceitar que a santidade leva tempo. E, sobretudo, não devemos querer avançar mais depressa do que a graça de Deus. O caminho cristão exige perseverança e paciência: avançar passo a passo, com Deus.
O segundo ponto diz respeito às virtudes. Muitas vezes, aquilo a que chamamos vício consiste num excesso ou numa desordem relativamente a uma virtude. O excesso de coragem pode transformar-se em temeridade; uma falsa compreensão da humildade pode conduzir à fraqueza ou à desvalorização de si próprio.
Há, porém, uma virtude na qual nunca haverá excesso: o amor. Nunca poderemos amar demasiado a Deus ou ao próximo.
Talvez não consigamos imitar os santos nas manifestações heróicas das suas virtudes. Podemos, contudo, procurar imitá-los no amor a Deus e ao próximo. É precisamente isso que faz deles santos. É aquilo que todos têm em comum: um amor de Deus que arde no coração e cuja força se derrama no amor pelos outros.
Chegamos assim à questão inicial: como devemos imitar os santos?
A resposta pode parecer paradoxal: não devemos procurar reproduzi-los.
Os santos são, antes de mais, imitadores de Jesus Cristo. Seguem Cristo e procuram conformar-se com Ele. Mas cada um deles é um ser humano concreto, com um temperamento próprio, uma educação particular, determinadas qualidades e determinados defeitos. Por isso, a santidade manifesta-se de maneira diferente em cada pessoa.
Podemos pensar na luz que atravessa materiais diferentes. Um vitral da Catedral de Paris não é a mesma coisa que a janela de uma casa. E, para a janela do meu quarto, talvez prefira uma boa janela de vidro duplo a um belo vitral que deixasse entrar o frio.
A comparação ajuda a compreender a questão. A luz divina, ao passar por São Tomás de Aquino, tornou particularmente visível a sua sabedoria; em São Francisco de Assis, manifestou-se de modo especial na pobreza. A mesma graça, porém, pode produzir frutos diferentes noutras pessoas.
Por isso, não devemos tentar forçar o «vidro» da nossa alma a transformar-se num magnífico vitral, se fomos feitos para ser uma janela que deixa entrar a luz e, ao mesmo tempo, protege do frio. Se tentarmos à força tornar-nos aquilo para que não fomos chamados, corremos o risco de não ser nem uma coisa nem outra.
A santidade é pessoal. A graça de Cristo manifesta-se em cada um de nós de acordo com a nossa natureza, a nossa história, a nossa educação, as nossas capacidades e também as nossas limitações.
Devemos, portanto, procurar ser santos — mas santos segundo aquilo que Deus quer realizar em nós.
É importante olhar para o exemplo dos santos. Eles mostram-nos que a santidade é possível e revelam-nos, de muitas maneiras, o que significa seguir Cristo. Mas não devemos construir uma santidade artificial, baseada na tentativa de reproduzir a personalidade, os gestos ou o percurso espiritual de outra pessoa.
A santidade consiste, em certo sentido, em sermos verdadeiramente nós próprios, libertos do pecado.
Deus não nos pede que abdiquemos da nossa personalidade. É também por isso que podemos aprender a acolher e a amar aquilo que somos. Deus ama-nos como somos. Naturalmente, não ama o nosso pecado — essa não é a questão —, mas ama-nos profundamente, com a nossa história, as nossas qualidades e os nossos defeitos. E pode servir-se até dos nossos defeitos para formar em nós o santo que deseja que nos tornemos.
É sobretudo este aspecto que importa recordar na procura da santidade. É necessário combater o pecado, sem dúvida. Mas não devemos deixar-nos desencorajar pelas nossas misérias, pelas nossas limitações ou pelas nossas quedas. Elas não significam que o caminho tenha fracassado. Deus pode servir-se também delas no processo da nossa conversão e santificação.
O santo não é aquele que nunca cai, mas aquele que se levanta sempre.
A santidade não consiste, portanto, em reproduzir a vida de um santo particular. Consiste em deixar que a graça de Deus transforme a nossa própria vida, de acordo com aquilo que Ele quer realizar em nós. Os santos podem ser modelos e companheiros de caminho, mas o único modelo que todos eles têm em comum é Cristo.
Por isso, vale a pena pedir a Deus a graça da paciência no nosso próprio caminho de santificação; procurar imitar sobretudo o amor dos santos; e aprender a levantar-nos sempre, até ao fim da nossa vida. Assim, um dia, poderemos contemplar, juntamente com todos os santos do Céu, a beleza de Deus e participar eternamente da sua vida.