Ver a Igreja com os olhos da fé
Da contemplação de Cristo ao Mistério da Igreja: um olhar de Fé

Três maneiras de olhar para Cristo
Quando Jesus viveu entre nós havia três maneiras diferentes de olhar para Ele:
1- Entre os homens que se encontraram com Jesus muitos O consideraram como um simples homem, um homem igual aos outros. Cruzaram-se com Ele nos caminhos da Palestina sem reconhecerem a sua divindade: «Não é Ele Jesus, diziam eles, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe? Como se atreve a dizer agora: “Eu desci do Céu”?» (Jo 6, 42). Talvez alguns homens tenham ficado admirados com a pregação de Jesus durante algum tempo, mas acabaram por pô-lo na categoria dos loucos ou dos revolucionários políticos. Nenhum desses homens soube ir além das aparências.
2- Outros homens olharam para Cristo com maior profundidade e conseguiram discernir n’Ele algumas qualidades extraordinárias. Esses homens viram nos ensinamentos de Cristo uma sabedoria surpreendente para alguém que não tinha frequentado as escolas; e reconheceram na vida de Cristo uma santidade inaudita. De facto, devido às obras espetaculares de Cristo, alguns homens souberam reconhecer n’Ele um poder sobre-humano pensando que Jesus era um profeta: “«Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas.»” (Mt 16, 13-14). Estes homens assistiram aos milagres de Jesus, mas nunca chegaram a contemplar o mistério da Encarnação, eles ignoravam a razão do extraordinário esplendor de Cristo.
3- Enfim, um punhado de homens olhou para Cristo com os olhos da Fé sobrenatural. Esses homens acreditaram no Mistério do Verbo Encarnado, por isso, compreenderam a vida extraordinária de Cristo. Só estes homens é que conheceram verdadeiramente Jesus: “Tomé respondeu-lhe: «Meu Senhor e meu Deus!».” (Jo 20, 28).
Cristo e a sua Igreja
Há uma analogia entre a maneira de olhar para Cristo e a maneira de olhar para a sua Igreja: é tão difícil para nós reconhecer Cristo na sua Igreja, como para os contemporâneos de Nosso Senhor reconhecer em Cristo a sua divindade. Aquilo que Cristo fazia aos seus contemporâneos, comunicando-lhes os dons de Deus, é o que a Igreja continua a fazer no espaço e no tempo. A Igreja é o Evangelho que continua, é Cristo espalhado e comunicado para salvar a humanidade. A Igreja existe no meio do mundo e propõe a sua Mensagem e a sua Vida a todos, mas nem todos a conhecem verdadeiramente. A Igreja é a continuação da obra redentora de Cristo e é por isso que para meditar o Mistério da Igreja é preciso, primeiro, meditar o Mistério de Cristo.
Três maneiras de olhar para a Igreja
Na verdade, podemos olhar para a Igreja de três maneiras diferentes– como no caso de Cristo – mas só a terceira é que nos revela a sua verdadeira identidade:
1- O olhar dos homens das estatísticas e dos historiadores das religiões é muito superficial quando se limita à mera descrição das aparências. Para eles a Igreja é uma comunidade religiosa como as outras, mas apesar de tudo eles acabam por admitir – mais cedo ou mais tarde – que ela se destaca das outras religiões devido à sua estrutura hierárquica, à sua doutrina, à sua tradição, ao seu culto, ao seu Sacrifício, aos seus sacramentos, às suas orações, às suas cerimónias litúrgicas e etc.
2- Um observador mais atento conseguirá ir mais longe e reconhecerá certamente a qualidade dos valores propostos pela Igreja Católica. Essa alma observadora talvez consiga constatar algumas propriedades essenciais e extraordinárias da Igreja: a sua constância ao longo das tribulações da História, a sua unidade na sua imensa diversidade, a sua universalidade apesar da sua exigência moral, o esplendor dos seus Santos e etc. Talvez, ao constatar este conjunto extraordinário de propriedades, o observador atento tenha chegado a afirmar o carácter miraculoso, espetacular e único da Igreja, mas não vai para além disso. Muitos homens não chegam a perceber a união íntima entre Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, e a sua Igreja.
3- Enfim, há uma terceira maneira de olhar para a Igreja: é o olhar da Fé. Só assim é que a Igreja se revela no seu mistério profundo, como sendo o Corpo Místico de Cristo, habitado pelo Espírito Santo que a dirige e que permanece n’Ela. A Igreja é um mistério da Fé, como a Santíssima Trindade, a Encarnação Redentora ou a Eucaristia. A Igreja é um mistério inesgotável que deve ser contemplado na oração. É isso que proclamamos todos os Domingos no Credo: “Creio na Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. Professo um só baptismo para a remissão dos pecados…”. À luz da Fé percebemos o carácter miraculoso da Igreja que se manifesta exteriormente e que é admirável aos olhos do mundo. A Igreja não é uma sociedade meramente humana ou uma empresa gigantesca, a Igreja é um Mistério da Fé. A Igreja é uma iniciativa de Deus e é através dela que Deus se comunica aos homens.
As leis da Igreja
Assim como há as leis da Física e da Química, também há as “leis da Igreja”. Quando olhamos para a Igreja com uma visão sobrenatural conseguimos, de certa maneira, captar as suas “leis”. Basta olhar para a História e para os seus movimentos com os olhos da Fé. Uma das leis fundamentais da Igreja é a lei da Reacção de Santidade. Eis aqui a sua fórmula: à medida que o reino do mal avança e se espalha no mundo, Deus suscita na Igreja grandes Santos para contrariar essa expansão do mal. A verdade é que todas as grandes heresias foram combatidas por grandes Santos. E que as grandes famílias religiosas e espirituais da Igreja surgiram para combater um mal presente, os franciscanos para combater a opulência, os dominicanos a ignorância e por aí adiante... Esta fórmula, enunciada por São João da Cruz nos seus Ditos de Luz e Amor do Autógrafo de Andújar, é a primeira máxima deixada pelo Doutor Místico: “O Senhor sempre revelou aos mortais os tesouros da Sua Sabedoria e do Seu Espírito, mas agora que o mal mostra mais o seu rosto, Deus revela ainda mais”. Quem sabe se, por exemplo - num tempo em que muitos membros da Igreja são infiéis no que toca à pureza - Deus não estará a suscitar almas heroicamente puras para fazer resplandecer na Igreja a pureza de Cristo e o seu amor pelas almas?
A Lei Suprema da Igreja é a Lei do Evangelho, é a lei da Caridade (cf. Mt 22, 36-40; Rm 13, 8-10 e 1 Cor 13, 1-13). Como dizia São Francisco de Sales: os Santos são a música cuja pauta é o Evangelho. Comecemos por ler a pauta e em breve a melodia triunfal da caridade dos Santos ressoará por toda a Terra. A verdade, é que a Igreja não obedece às mesmas leis que as sociedades e empresas humanas. O “sucesso” da Igreja não depende apenas da competência do seu pessoal e das estratégias de publicidade. A Santidade da Igreja é-lhe comunicada por Cristo que é o seu princípio vital. A Igreja é o Corpo Místico de Cristo e o povo de Deus. O “sucesso” da Igreja depende da graça de Deus e da fidelidade dos seus membros a Cristo. Por vezes, Deus permite grandes desgraças, mesmo no seio da sua Igreja, para que os seus membros não caiam na soberba dos poderosos e no conforto da mediocridade. As misérias humanas que desfiguram a Igreja de Cristo são uma ocasião para os seus membros meditarem na miséria humana e na necessidade que o homem tem de Deus: “Sem mim nada podeis fazer”, dizia Nosso Senhor. Deus permite estes males para daí tirar um bem maior: a purificação e santificação dos membros da sua Igreja (onde também estão incluídas as almas inocentes injustiçadas). Por estranho que pareça - de maneira misteriosa e escondida que muitas vezes só Deus sabe - até os acontecimentos mais horríveis acabam, no fim, por contribuir para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja, ou seja para a Glória de Deus e a Salvação das almas.
Tempos difíceis
Vivemos tempos difíceis da História, mas ao mesmo tempo vivemos tempos “excitantes” - falta de um melhor adjectivo. Vivemos, em certa medida, tempos semelhantes aos dos primeiros séculos da Igreja, em que os Cristãos eram perseguidos pelo Império Romano e em que a maior parte do mundo não conhecia o Evangelho. Hoje em dia a ordem temporal das nações é anticristã e as pessoas não conhecem verdadeiramente Cristo e a sua Igreja. As pessoas sabem que o Evangelho existe, mas ignoram o seu conteúdo e o seu Autor Principal: Deus. Saber que as pirâmides existem não é a mesma coisa que tê-las visitado e saber o que são. Saber que o Evangelho existe não é a mesma coisa que vivê-lo. E são precisamente os Santos - que Deus suscita - que vivem o Evangelho e que o espalham pelas suas obras e pelas suas palavras. A lei fundamental da Igreja – segundo a qual face à expansão do mal, Deus suscita grandes Santos – deve encher-nos de esperança. O Espírito Santo não tirou férias, nem se reformou e hoje, mais do que nunca, está a suscitar grandes Santos para contrariar o mal no mundo. “Anunciei-vos estas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo, tereis tribulações; mas tende confiança: Eu já venci o mundo!” (Jo 16, 33).
Fiéis à graça
“Se tu soubesses o dom que Deus tem para te dar (…)” (Jo 4, 10). Não podemos desperdiçar as graças que Deus nos dá, se formos fiéis, Deus fará de nós grandes Santos no combate contra o Mal. Se queremos reformar o mundo ou a Igreja é preciso começar pela nossa própria reforma interior. É aí que se trava o verdadeiro o combate! A Igreja não precisa de reformadores hereges nem de revolucionários, a Igreja precisa de Santos. Para que estas linhas não criem em nós apenas um vago sentimento de confiança e uma fraca piedade filial pela Igreja, convém tomarmos resoluções concretas. Essas resoluções podem começar por um acto de conversão pessoal, por exemplo: um bom exame de consciência e uma confissão.
Ou podem consistir em propósitos de oração ou penitência pelo Papa, por um Bispo ou por um sacerdote que mais precise. Enfim, cada um deve fazer a sua resolução, mas é importante que a faça. Face às dificuldades nós poderíamos ceder a um certo desânimo e pensar: afinal quem sou eu para fazer a diferença? Não nos deixemos enganar pelo demónio e que fiquem bem gravadas no nosso coração estas palavras de Santa Teresa d’Ávila: “Uma alma que se eleva, eleva o mundo!”