Fidelidade
Carta do Superior do Districto de França aos fiéis

Caros amigos e benfeitores,
A 2 de julho de 1988, os fundadores da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro manifestavam publicamente as suas intenções:
“Para honra da Santa Igreja Católica, para consolação de numerosos fiéis perturbados e para o apaziguamento das suas consciências, os abaixo assinados, até aqui membros da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, declaram que permanecem, no profundo pesar pelas consagrações episcopais ilícitas de 30 de junho, como a ”pars sanior[1]” desta Fraternidade na Igreja Católica, e não têm outro desejo senão o de poder viver na Igreja como sociedade religiosa desta Igreja, em submissão, como é evidente, ao seu chefe, e poder trabalhar pela Igreja. Com satisfação, reconhecem nas propostas generosas e verdadeiramente maternais que a Igreja fez no acordo de 5 de maio de 1988 os fundamentos para um futuro fecundo e verdadeiramente católico da sua comunidade.
Expressam a esperança de poder ser novamente erigidos canonicamente pelas autoridades eclesiásticas competentes, para a realização da sua vocação específica, para se dedicarem ao cuidado dos fiéis e, especialmente, à formação dos sacerdotes num espírito autenticamente católico e, nesse sentido, em conformidade com a venerável tradição da Igreja Católica, poder celebrar o culto divino segundo as directivas de uma tradição inquestionável.
Para esclarecer o mais rapidamente possível o seu estatuto eclesial, os abaixo assinados, reunidos em oração, irão apresentar sem demora esta declaração à Santa Sé, entregando o seu trabalho sob a proteção dos príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo, com a bênção do Santo Padre.”[2]
Este acto de fé na Providência e na Igreja não foi em vão, pois São João Paulo II, após o motu proprio Ecclesia Dei, quis fundar de forma estável a nossa comunidade. Apenas três meses depois, a 18 de outubro de 1988, a FSSP foi erigida canonicamente pela Santa Sé como Sociedade de Vida Apostólica de direito pontifício.
Como é que isto aconteceu? A 30 de junho de 1988, Mons. Lefebvre consagrava quatro bispos contra a vontade do Papa. Perante a dimensão da crise da Igreja, reconhecida não só pelo “mundo tradicionalista”, e também na sequência de numerosas injustiças sofridas, a possibilidade de consagrações episcopais mesmo sem mandato pontifício tornou-se progressivamente, para Mons. Lefebvre, uma questão séria que merecia reflexão. Foi precisamente para ponderar a legitimidade de tais consagrações que o Padre Josef Bisig, então assistente de Mons. Lefebvre, foi encarregue de dirigir uma comissão teológica sobre esta questão.
No âmbito dessa função, redigiu um breve ensaio teológico intitulado: «Da consagração episcopal contra a vontade do Papa». Este estudo, publicado em 1988 pelos fundadores da FSSP[3].
A conclusão desta reflexão teológica está em conformidade com a Tradição da Igreja: devido à primazia de jurisdição do Papa e à natureza do ministério episcopal[4], as consagrações episcopais realizadas contra a vontade expressa do Papa opõem-se ao direito divino e significam, consequentemente, uma rutura aberta com a Igreja Católica.
Na sequência deste estudo, Mons. Lefebvre escreveu aos membros da comissão uma resposta manuscrita bastante detalhada. Nela, chegava finalmente à seguinte conclusão: «O problema da situação dos fiéis e da situação do papado atual torna caducas as dificuldades de jurisdição, de desobediência e de apostolicidade, porque estas noções supõem um Papa católico na fé e no seu governo.
Sem entrar nas consequências do Papa herege, cismático ou inexistente, que conduzem a discussões teóricas sem fim, não poderemos nós e não devemos nós, em consciência, afirmar hoje, após a promulgação do novo direito que afirma claramente a nova Igreja e após os actos e declarações escandalosos sobre Lutero, que o Papa João Paulo II não é católico?»[5]
Terrível interrogação daquele que tinha sido um verdadeiro pai para os fundadores da FSSP. Ao recusarem corajosamente as consagrações episcopais, tratava-se, portanto, para os nossos fundadores, de permanecer unidos ao Pontífice Romano e de o fazer conservando o uso da antiga liturgia romana. É precisamente com esse objetivo que a FSSP foi reconhecida e fundada pela Santa Sé.
No ano de 2026, revivemos uma situação análoga à de 1988. Foram anunciadas novas consagrações episcopais contra a vontade do Papa para 1 de julho. Cada um pode compreender até que ponto esta situação reveste, em particular para a FSSP, um carácter especialmente doloroso. Poderíamos dizer que isto já não nos diz respeito (ou já não nos diz respeito directamente), mas a gravidade de tal acto para a unidade da Igreja e para a história da nossa fundação não nos pode deixar indiferentes.
Sob vários aspectos, permanece certamente na Igreja uma crise doutrinal, teológica e litúrgica. Mas isso não impede, ainda assim, o Espírito Santo de continuar a agir nela. Assim, observa-se com alegria que, nos últimos anos, muitas pessoas redescobrem ou descobrem a fé católica. O Senhor continua a atrair; e esta sede manifesta-se, entre outros sinais, no «crescimento das comunidades ligadas ao vetus ordo»[6].
O anúncio do Evangelho é uma caridade sempre necessária, mas mais difícil em épocas conturbadas. Desde os Apóstolos, de facto, as crises na Igreja foram sempre um mistério para a nossa inteligência e uma prova. É por isso que resolução da crise não é simples e deve ser prudentemente iluminada pelos princípios da fé. Nós sabemos que por onde o Mestre passou, os discípulos também têm de passar. Portanto, na vida cristã há necessáriamente momentos em que a Providência nos vai indicando caminhos misteriosos.
A cruz de Cristo é então plantada nos nossos corações com toda a sua força dolorosa, mas também com a sua fecundidade.
Ao estabelecer a FSSP no respeito e na justa dependência das autoridades eclesiais, os nossos fundadores não ignoraram as consequências, por vezes difíceis, que isso poderia ter para a nossa comunidade e para os fiéis que nos estão confiados. Também não ignoravam que essa escolha nem sempre seria bem compreendida.
Mas Cristo, a quem nada escapa, não deixa os seus filhos órfãos. Os nossos sofrimentos unidos aos de Cristo trazem consigo uma graça de abandono confiante, e a aceitação sobrenatural da cruz nunca é infecunda. À semelhança de Cristo, é este o exemplo que nos deixam os santos que sofreram por parte da Igreja: Santa Joana d’Arc, São João da Cruz, Santo Afonso de Ligório, Santa Bernadette ou São Padre Pio, e muitos outros ainda… Eis aqui o prolongamento da Encarnação redentora, eis aqui o mistério da obediência da fé e eis aqui as razões que levaram os fundadores da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro a fazer estas escolhas históricas, teológicas e espirituais.
« Ecclesia semper reformanda[7] », diz o adágio clássico. Mas nunca houve um santo que tenha participado numa reforma da Igreja “a partir de fora”, isto é, subtraindo-se à sua autoridade visível e reconstituindo uma hierarquia paralela.
Estas verdades sobrenaturais permanecem sempre válidas e devem, portanto, iluminar as circunstâncias actuais. Infelizmente, as paixões exacerbadas pelos meios de comunicação omnipresentes enfraquecem a razão iluminada pela fé. Ainda que as épocas mudem e que a expressão das verdades eternas possa ser atenuada ou até tornada ambígua, existe apenas um único Magistério da Igreja. Reconhecer isto permite não sacrificar a Verdade, seja por um relativismo generalizado da autoridade do Magistério, seja por um maximalismo desmedido dessa mesma autoridade, ambos contrários à fé.
Mas será que estamos condenados ao silêncio perante os erros dos homens que têm cargos na Igreja ou perante os escândalos visíveis no seu seio? Nem pensar! Porém, mantendo justamente a noção de «Tradição viva[8]», a FSSP procura sempre agir em conformidade com ela. De facto, o papel das comunidades religiosas não consiste em erigirem-se em magistério paralelo, fazer declarações públicas ou comunicados sensacionalistas sobre a Igreja. E adoptar sistematicamente um espírito de crítica gera mais confusão do que luz.
Pelo contrário, um espírito crítico, quando uma afirmação choca ou levanta questões, procura a luz do Magistério permanente para a esclarecer. A própria Igreja agiu assim em relação a certas passagens do Concílio Vaticano II[9]. É assim que a FSSP com coragem, pondo-se no seu devido lugar e sem espalhafato, procura permanecer fiel ao protocolo de acordo assinado no dia 5 de maio de 1988, que está na base das suas Constituições.
A FSSP continua também firmemente atenta à situação dos fiéis que exprimem sentimentos de injustiça ou de incompreensão quanto à forma como, por vezes, são aplicadas as promessas feitas em 1988[10]. De facto, a grande maioria destes fiéis não se enquadra nas categorias sociopolíticas ou anti eclesiais que frequentemente lhes são atribuídas para justificar restricções ao seu apego sincero às pedagogias tradicionais da fé católica. Estes fiéis querem permanecer na Igreja e em comunhão com Ela. Não se opõem à Igreja, mas esperam d’Ela a suavidade e a paz da vida cristã nas formas comprovadas das tradições litúrgicas, espirituais e disciplinares.
É para benefício de toda a Igreja, por todos os fiéis e, especialmente por aqueles que descobriram ou redescobriram recentemente as alegrias da vida cristã através do vetus ordo, que a FSSP procura permanecer fiel à missão que recebeu da Santa Sé. Pela fidelidade à sua história e ao seu património litúrgico próprio, a FSSP vive plenamente na comunhão da Igreja Católica, não como se quisesse salvá-la, mas trabalhando no seu seio para anunciar a alegria do Evangelho. E Deus sabe quão necessária é esta missão num mundo tão secularizado.
A fé e a história da Igreja ensinam-nos que a fidelidade ao carisma fundador das várias comunidades religiosas é a condição da santificação dos seus membros e da sua fecundidade apostólica.
Não ignoro, evidentemente, que a missão específica da FSSP é, por vezes, erradamente percebida como um atentado à comunhão eclesial. Mas quero recordar que foi precisamente num espírito de comunhão e de unidade que a FSSP foi fundada. A estabilidade deste património[11]recorda a importância e a actualidade da missão da FSSP: manter viva a liturgia tridentina, não apenas para o bem das almas, mas também para manifestar a comunhão da Igreja ao longo dos séculos, como gostava de sublinhar o Papa Bento XVI.
Caros amigos e benfeitores, rezemos fielmente pela Igreja e pelo Papa Leão XIV. Rezemos também para que o Espírito Santo ilumine cada um de nós. Tenhamos, por fim, uma grande caridade mútua, pois os períodos de crise são também momentos em que o divisor actua. Prefiramos o diálogo e o silêncio interior às discussões estéreis, aos debates apaixonados ou às acusações mútuas.
E pedimos também a todos os membros da Fraternidade de São Pedro que continuem a servir a Igreja de Cristo, em comunhão com o seu chefe, para trabalhar, n’Ela e com Ela, pela salvação das almas.
Padre Benoît de Giacomoni, FSSP
Superior do Districto de França
Consultar o texto original (francês)
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Notas:
[1] Traducção: “a parte mais sã”.
[2] Declaração de intenção consultável aqui
[3] Este documento pode ser consultado em inglês aqui
[4] Cada bispo católico deve necessáriamente ser enviado em missão pelo sucessor de Pedro, cabeça co corpo episcopal.
[5] Excerto de uma carta manuscrita de Mons. Lefebvre.
[6] Cf. Carta do Papa Leão XIV aos bispos franceses, março de 2026.
[7] “A Igreja deve ser constantemente reformada” – adágio atribuído a Santo Agostinho.
[8] Noção utilizada no motu próprio Ecclesia Dei.
[9] Por exemplo: no Catecismo da Igreja Católica, n.º 2105, sobre a liberdade religiosa; na Declaração «Dominus Jesus» da CDF, de 6 de agosto de 2000; no esclarecimento da CDF, de 7 de julho de 2007, sobre o «subsistit in».
[10] Protocolo de acordo do dia 5 de maio de 1988, disponível no site fssp.org:
«1) Prometemos ser sempre fiéis à Igreja Católica e ao Pontífice Romano, seu Pastor Supremo, Vigário de Cristo, Sucessor do Beato Pedro no seu primado e Chefe do corpo dos bispos.
2) Declaramos aceitar a doutrina contida no n.º 25 da Constituição dogmática Lumen Gentium do Concílio Vaticano II sobre o Magistério eclesiástico e a adesão que lhe é devida.
3) No que diz respeito a certos pontos ensinados pelo Concílio Vaticano II ou relativos às reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição, comprometemo-nos a adoptar uma atitude positiva de estudo e de diálogo com a Sé Apostólica, evitando qualquer polémica.
4) Declaramos, além disso, reconhecer a validade do Sacrifício da Missa e dos sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que a Igreja faz e de acordo com os ritos indicados nas edições típicas do Missal Romano e dos rituais dos sacramentos promulgados pelos papas Paulo VI e João Paulo II.
5) Por fim, prometemos respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas, especialmente as contidas no Código de Direito Canónico promulgado pelo Papa João Paulo II, sem prejuízo da disciplina especial concedida à Fraternidade por uma lei particular.»
[11] Esta missão eclesial foi confirmada pelo Papa Francisco num decreto a 11 de fevereiro de 2022.